À beira

Ele nos fez calçar botas. Não por frio, mas sim pelos pedriscos. Antes disso, pôs-se à beira da cama de cada um de nós, os cinco, que aquelas não eram mais horas para dormir. Que muita coisa lá fora estava por acontecer, e que desde cedo ele próprio já havia se vestido, as calças sustentadas pelo cinto. Que havia tomado café há horas. E que fôssemos, além de tudo, obedientes.

Nas partes mais estreitas do percurso só dava mesmo para seguirmos enfileirados. Era mata alta que cheirava. Uma carreirinha dos dois mais velhos à frente, os dois menores no meio. Eu. E ele por último, vigilante. A vara para domar os cavalos, essa levava na mão direita. Disso tenho lembrança.

Também do silêncio. Também do sol e dos insetos. Depois de tempos, estávamos à beira do esgotamento.

De repente o espaço se expandiu, de tal forma que vimos o lago. Eu vi o lago. Águas dóceis e claras. Ninguém se mexeu de contentamento. Nem pio. Até que ele nos pôs sentados, um a um. Ouvi suspiro de fadiga da sua parte, nem bem fadiga era, eu acho. Talvez fardo. A mim, sustentou usando seus braços por debaixo dos meus braços. Estávamos novamente enfileirados, a descalçar as botas.

Ele pousou a vara na terra, bem à beira, rente à margem. Nem foi preciso entender a dimensão do lago. Meus pés tocavam a água. Aliás, os pés de todos nós. Em seguida, balançávamos as pernas, espalhando gotas; depois nem eram mais gotas, nem só o balançar, era tremenda aguaceira para todos os lados, mais para os lados dele, uma chuva de satisfação sobre o padrasto. E mais ainda, muito mais em direção ao alto, beirando alcançar umas nuvenzinhas passageiras.

 

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