A festa de Sucot


Essa é a festa judaica que mais me lembra da minha buba Goldé. Desde pequena, era convidada para compartilhar um leiker e uma bebida, no caso um suco de uvas, em sua sucá, construída com todo o esmero e religiosidade pelo seu marido, o senhor Menashé. Para os meus olhos de criança, achava aquela cabana muito simples, sem nenhum enfeite. Admirava só as folhas de palmeiras que a cobriam, naquele primeiro andar da rua Santa Clara 110. Torcia para que não chovesse, pelo menos na hora de nossa visita.

Naqueles tempos, os avós não pediam a colaboração dos pequenos para as suas obras. Uma pena, pois só eu tinha uma coleção de desenhos, que fazia na escola, sobre Sucot. Imagina se juntasse toda a produção artística dos meus primos, teríamos a Sucá mais enfeitada da cidade. E saber que a cada dia uma personalidade ilustre de nosso povo ia admirar as nossas criações. Pois, consta que Avraham, Itzhak, Iaacov, Moshé, Aharon, Iossef, David e Shlomo Hamelech têm o seu dia consagrado, para visitar as Sucot.

A cada ano, nos ensinavam, na escola, o significado das quatro espécies que faziam parte do ritual dessa festa. Sempre me confundia qual a que tinha cheiro e gosto, qual a que tinha só cheiro, qual a que tinha só gosto e a que não tinha nem cheiro, nem gosto. Ficava sempre com pena dessa última, a Aravah.

Já adulta, fui desvelando o simbolismo dessas diferentes espécies, que, segundo os nossos sábios, representam a variedade de tipos de pessoas existentes no povo judeu. Ou, também, as diferentes fases da vida de um mesmo indivíduo, às vezes mais direcionada ao estudo da Torá, às vezes, mais dedicada às boas ações, às vezes conseguindo conjugar estudo e ação, e às vezes, com mais necessidade, por um período, dos outros, para levar adiante a sua vida.

Me lembro que só na casa da minha buba se materializava a possibilidade de cumprir as mitzvot relacionadas com o Etrog (fruta cítrica), o Lulav (ramo de palmeira), o Hadass (murta) e Aravah (salgueiro). Hoje tudo mudou. Pelo menos, nas sinagogas Chabad, virou um “must” a posse das quatro espécies para o acompanhamento das rezas de Sucot. É realmente um momento único, assistir os movimentos coordenados das mãos mais ou menos jovens segurarem as quatro espécies juntas, no espaço da sinagoga, em louvor a Deus e aos seus feitos.

A lição, que venho aprendendo, ao longo do tempo, é a do reconhecimento das diferentes espécies de pessoas, que fazem parte de nosso povo. E da importância do respeito de uma pela outra, contribuindo para a nossa união física e espiritual. A história já deveria ter nos ensinado que a nossa força vem dessa comunhão, que admite o diferente, que ouve o contraditório, desde que o objetivo seja comum, baseado em nossa ética e moral.

A Sucá, frágil em sua essência material, transitória como morada, vem lembrar ao povo judeu, que a nossa vida é passageira. O Salmista declara que os nossos dias são como uma sombra que passa.
Segundo o rabino Avraham Cohen, o Midrash nos ensina que a nossa vida na terra não é comparável à sombra de uma parede, nem à de uma árvore, mas à sombra de um pássaro que voa.

Aquele que se conscientiza deste ensinamento do judaísmo, saberá valorizar o seu tempo e transformar cada dia de sua existência numa vida útil e produtiva para todos à sua volta.

Chag Sucot Sameach!!!

2 Comentários

  1. Eva Britz
    Eva Britz 4 de outubro de 2017 at 23:54 |

    Lindo texto !

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  2. Eva Britz
    Eva Britz 4 de outubro de 2017 at 23:57 |

    Sempre que envio elogios às matérias lidas,aparece um comentário dizendo que já havia comentado as mesmas,então cumprimento com louvor este jornal que só nos enriquece.
    Parabéns a toda equipe !

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