A salada

Era uma salada simples: alface lisa picotada, coberta com tomates fatiados em rodelas muito largas e ovos cozidos de gema dura e amarela, servida em tigelinhas sobre pratos rasos brancos. Só lá eu comia salada assim, antes da refeição. E por isso, talvez, as cores e os tomates fossem tão mais generosos. Eu percebendo as coisas generosas que vinham da voz rouca e grave de Sarah, quando a gente se sentava com as mãos limpas e o uniforme ainda sujo de tinta guache.

Naquela época comíamos em silêncio e sobre almofadas. Só assim era possível alcançar a mesa e dominar os talheres; nós, que pouco dominávamos a quantidade de azeite e vinagre, porque ainda não entendíamos nada sobre temperos.

Tudo parecia mesmo dadivoso pelas mãos morenas dela, Sarah; as cores, o aroma, a textura, os contrastes, o sabor adocicado tão bem realçado por pitadas de sal, a gente mal entendendo de fome e do silêncio que dizia um bocado daquela casa. Quando a janela ficava aberta, dali se avistava o verde da mata do Humaitá; arbustos que se moviam e o farfalhar que a gente ouvia como se estivessem as folhas só para brincar de música.

Do lado de dentro, a sala clara, cheia de luz, os móveis escuros, a mesa oval de madeira, onde caberiam seis quando éramos duas. Um canto com vasos de plantas. Uns paninhos de renda sobre as mesinhas laterais. A cristaleira com xícaras de porcelana florida. Tão diferentes umas das outras, embora da mesma forma delicadas e ingênuas.

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