A saleta

Eu sentava no alto do sofá da saleta, encaixando as pernas nos ombros da mãe, para pentear os seus cabelos. Os pés livres, balançando descalços. Enquanto ela virava as páginas da Manchete, entre uma e outra escovada, o salão de beleza reinava absoluto sob a chefia de um pente, uma escova, grampos e alguns rolinhos de cabelo. Eu abria com a ajuda dos dentes, os grampos, e os prendia, um a um, bem rentes. A mãe nem dava importância, apenas sorria, envolvida em telas de costura e tapetes, entre lãs vermelhas e marrons, ou atarefada com o crochê, a agulha esperando o tempo certo para que as mãos dessem lá suas voltas, ou vice-versa. Na verdade, nunca entendi essa habilidade, nem muito menos, como no meio da história, uma blusa ou um casaco iam brotando em carne e osso.

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