Absurdo


Triste semana. Mais uma em que as instituições brasileiras fingem estar normais. Fingem? Nem isto. Sempre afirmei que nossos políticos e poderosos agem e governam como se o povo não existisse. Esquizofrenia total. Ou o ministro Gilmar Mendes não teria feito papel principal nesse teatro absurdo que foi o julgamento do TSE, visto por todo o país. E o clímax da peça, dividida em várias cenas, o diálogo raivoso do presidente da Mesa, mandando às favas a modéstia para carrear para si a honra de ter lançado luz e brilho sobre o relator que ele escolheu a dedo, talvez pensando que o Ministro Herman Benjamin faria o seu jogo, em retribuição à glória de ter refletores sobre si. Houve quem dissesse que tal julgamento, no terceiro ano de um mandato, fazia dos próprios julgadores réus. Houve quem escrevesse que, se vaidade matasse, o ministro Gilmar Mendes não estaria mais entre nós. E a vasta cabeleira branca do ministro Napoleão? Nem o topete do ministro Luiz Fux foi poupado, acusado de artificial. Dos dois escolhidos por Temer, nem falar. Gilmar, Napoleão, dois trazidos por um dos réus. O ministro Gilmar Mendes arquitetou tudo sabendo que já eram quatro votos a favor. Foi isto mesmo?

Pois usando cada ponto do agravo de instrumento interposto pelo, de novo ele, Ministro Gilmar Mendes na ação contra a chapa Dilma-Temer, em que exigia mais investigação no processo – e se exigia mais investigação é porque acreditava que algo novo podia ser encontrado. Pois foi encontrado e provado, mas eis que o ministro Gilmar Mendes, marcado o julgamento, mudou de pensamento e julgou que as provas encontradas não poderiam ser consideradas. Um paradoxo, um novo absurdo que o Brasil precisa engolir. Precisa?

Dilma caiu por incompetência total. Sua máscara da honestidade também já não mais existe. Lula tem dias contados. Leu, em algum lugar, que o registro de um bem em cartório é que faz o proprietário, e decidiu usar os amigos para registrarem bens que lhe pertenciam. Aceitar benesses devido à posição política, aceitar e vender favores é imoral, ilegal e motivo para impeachment e julgamento severo. Obstrução de justiça, uso da ABIN para incriminar ministros do judiciário, fazer acordos nada republicanos para se manter no Poder, o Brasil testemunha dias que o maior dramaturgo do mundo não pensaria em escrever, de tão absurdo.

Mas, também, a vida não precisa ter lógica; um roteiro, sim. Não há ‘de repente’ no teatro, mas no palco da vida nunca antes se viu tanto absurdo.

Muita gente até torceu para que Michel Temer aproveitasse estes meses de governo para escrever uma biografia que seus filhos e netos pudessem ler com certo orgulho. Mas qual. Fato é que, em algum momento, os corruptos esquecem o cuidado e se expõem ao mundo. Receber um bandido altas horas, sem revista apropriada, sem agenda e se deixar gravar; um advogado, um jurista, um professor de leis. Bah! E o ministro Henrique Meirelles, tendo sido presidente do Conselho das empresas dos irmãos Batista, não sabia dos empréstimos bilionários conseguidos no BNDES?

Tristes trópicos, como escreveu o pensador francês. A Cultura do país sofre, vive à míngua. Como imensa parte dos brasileiros.

No meio de tanto desgoverno e insegurança, lojas fechando sem parar, é de se imaginar que a recessão está longe de acabar. Como o bairro chinês em Cuba, abandonado pelos chineses que decidiram ir ganhar em vida em lugar mais tranquilo, veremos o Rio de Janeiro se transformar numa cidade fantasma, onde apenas o ilegal vigore?

E o clube judaico em Copacabana pichado? A situação anda tão difícil, tão desanimadora, que atacar os judeus tem se tornado mais constante. Quem pagará pelos desmandos políticos? Quem está forçando o olhar da população para o outro lado?

No meio de tanto absurdo nos Três Poderes, descobri um herói português, um homem que lutou para reviver a comunidade judaica portuguesa, e ele tem me animado os dias. Ele e uma mulher forte que descobri num artigo lido ao acaso. Ler é um bálsamo, e da leitura diária não abro mão; a literatura de qualidade me traz muitos presentes, ao contrário da vida real que encontro na mídia. Mas de uma e outra não podemos abrir mão em nossos dias tão tristes.

Mas, surpresa, a nova Mulher Maravilha se chama Gal Gadot, é israelense, linda, tem carisma e me levou ao cinema com a família para assistir ao filme que leva seu nome. Minha irmã o assistiu em São Paulo e me contou que alguns personagens falam ídiche em algum momento do filme. Há que se prestar muita atenção no filme, pois no meio de tantas línguas, algumas palavras podem ser distinguidas no dialeto judaico. Não é bem o meu gênero, mas como eu sempre digo, tudo que envolve judaísmo me interessa. E o Cinemark do shopping Botafogo tem cadeiras que se movem, acompanhando as lutas na tela. A heroína tem um ótimo preparo físico – e carisma.

De resto, e apesar da tormenta, torço, como sempre, para que haja paz entre os homens de bem, punição para todos os ratos da humanidade, um futuro melhor e mais justo para as gerações que chegam, e, enfim, que não sejamos obrigados, por mais tempo, a testemunhar os Três Poderes agindo e se repetindo de modo tão imoral e absurdo.

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