Ana de Ferro nos palcos do Recife

Ana de Ferro, uma das mais famosas prostitutas do século XVII, cantada nas músicas de Chico Buarque de Holanda e de Gilberto Gil, teria vivido no Recife, aonde chegou, no início da década de 1630.

Foi lendo ‘No Tempo dos Flamengos’, obra do historiador pernambucano José Antonio Gonsalves (com s mesmo) de Mello, no qual ele descreve a vida na então colônia do Recife e menciona uma célebre prostitua que ali teria vivido num sobrado, e que, sem dúvida, merecia ter sua história contada, que a atração pelo tema se consolidou em ideia, e daí em certeza de que a peça seria escrita.

Foi só o começo. Apenas após intensa pesquisa no Arquivo Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano, onde contei com a colaboração do estudioso José Alexandre Ribemboim, um de seus diretores na época, e depois de longa busca na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, os contornos de Ana de Ferro foram clareando em minha mente.

Então, para coroar a pesquisa, descobri um poema de Vital Correa de Araújo, grande bardo pernambucano, cujos românticos e instigantes versos dão vida a uma possível paixão vivida entre Maurício de Nassau e Ana de Ferro.

Consultado, o poeta cedeu seu trabalho, expressamente, para ser usado em texto teatral meu, assim tendo sido registrado. Deste modo, baseada num imaginado encontro entre o conde holandês e a carismática e atraente meretriz holandesa que aqui aportou nasceu esta peça, que lança luzes sobre o Recife da época de Nassau. Mais do que isso, ilumina o romance dos dois personagens, além de retratar aspectos da escravidão, da política, da vida religiosa e mundana da colônia que foi uma das mais importantes, senão a mais importante no período setecentista do Brasil.

Ana de Ferro, pois, merece ganhar vida, em todos os sentidos, por aliar dados históricos ao entretenimento. Por informar, formar e divertir. Por unir Teatro, Cultura, Educação e Prazer. Por colaborar para termos uma plateia mais consciente de seu passado, mais participativa no presente e mais crítica quanto ao futuro. E é graças à Companhia Popular de Teatro do Camaragibe, que há cinco anos leva minha visão de Branca Dias pelos palcos do Nordeste, do Chile e a até mesmo do Rio de Janeiro em sua circulação pelo país, que ‘Ana de Ferro, rainha dos taverneiros do Recife’, como veio a ser conhecida, fica de pé, viva, e começa sua jornada em agosto deste ano, na cidade onde viveu e reinou.

Alguém perguntaria por que não falar de nossa política, sempre com novidades escabrosas. Das novas delações, da punição – ou não – dos bandidos corruptos. De como Temer perdeu a chance de fazer algo por sua biografia. De como busca agora Sarney, logo ele, que em 60 anos de política fez questão de ignorar sua cidade, seu Estado, seu país. A semana foi terrível, como tem sido muitas que temos vivenciado, e como a presente semana já se anuncia.

Falta muito para voltarmos aos trilhos. Estamos à deriva há tempo demais, a não ser pelo trabalho hercúleo do juiz Sergio Moro e seus colegas do Ministério público e da Polícia Federal. Podiam cometer menos falhas? Sim, mas acertam tanto, dão algum fôlego ao povo brasileiro ao colocar na cadeia pessoas poderosas que jamais pensaram dormir em celas minúsculas.

O caminho é longo, e ainda temos os inimigos internos, os togados que deviam lutar pela Justiça, mas insistem em manipulá-la com palavras plenas de vaidade. Sem contar os vândalos, pagos por poderosos, que quebram, destroem, queimam prédios públicos, por falta de amor total à pátria. Pois quem ama o Brasil não pode ser complacente, conivente, cúmplice ou admirador de corruptos, por mais encantatórias que pareçam suas palavras.  Melhor pensar em cultura e torcer para que alguém se lembre de que ela é o pilar de uma sociedade e deve reluzir, ser como uma chama que atraia multidões e as transforme e melhore. Nesses dias tão obscuros, eu portanto agradeço à Companhia Popular de Teatro do Camaragibe por sua coragem e amor pelo teatro, pela História, pelo entretenimento, por tudo que o teatro nos traz. Ave, Ana de Ferro! Ave, Cultura!

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