Ana de Ferro renasce, sempre rainha dos Tanoeiros do Recife

Escrever é necessidade, creio que para a maioria dos que se dedicam às letras. Nasce da leitura, de muita leitura, mãe da boa e eterna Educação.

Em cada história de sucesso, de intriga ou de sofrimento que encontro pela frente, conhecer o seu conteúdo é compulsório. O livro traz a magia de nos fazer viajar para o futuro, de volta ao passado, ou mesmo para entender o presente. Pertencer ao povo do Livro tem sido uma dádiva que agradeço a cada dia, por toda a sua longa e rica História, recheada de humanismo, sofrimento e muita dignidade. E então, de tanto ler histórias, outras nascem e escorrem por entre os dedos e preenchem a folha branca.

Assim tem sido com os contos, ensaios e peças que venho escrevendo. Com ‘Ana de Ferro’ não foi diferente, ao traçar uma biografia fictícia da famosa prostituta do Brasil holandês, descoberta ao acaso, lendo No Tempo dos Flamengos, do historiador pernambucano José Antonio Gonsalves (com s) de Melo. Não foi só. Também encontrei, na Gesta Pernambucana, um belo poema de outro autor local, Vital Correa de Araújo, que criava um romance entre a bela holandesa e Maurício de Nassau, o governador que veio para a colônia em 1637, alguns anos após Ana de Ferro ali se instalar.

Após sua tempestuosa chegada, Ana adquiriu Zambi, negro bonito e que ela logo transformou em amigo. Maria Cabelo de Fogo e Chalupa Negra (também citadas pelo grande historiador, cujas vidas foram desenvolvidas após pesquisas de época) se uniram aos dois primeiros personagens. Ana era holandesa – ou francesa, como a desejassem chamar; a segunda, o nome já dizia, era uma ruiva branquela, também vinda da Holanda, e a terceira representava a luxúria, temida pelas esposas e desejada pelos homens.

Ana de Ferro e Maurício de Nassau se envolveram em paixão; o romance, se fictício, existiu para o poeta pernambucano. O belo poema do Conde dedicado à prostituta foi cantado por Chico Buarque de Holanda e Gilberto Gil, em músicas populares muito conhecidas e apreciadas.

O relacionamento secreto de Cabelo de Fogo logo se mostrou plausível pelos estudos da colônia afastada da Metrópole, lugar onde muitos viviam a léguas da castidade.

Eckout, o famoso pintor holandês, entra em cena para recuperar, com sua arte, e a pedido de Ana de Ferro, a dignidade do escravo Zambi.

A mudança na vida de Ana de Ferro sofre uma reviravolta. Depois, outra, e uma terceira. O golpe de misericórdia não tarda. Ana de Ferro sofre, desaba, mas é mulher forte, guerreira, e deve encontrar forças para seguir seu destino e cumprir sua lenda.

Fico feliz por saber que a peça, premiada em concurso de dramaturgia em Recife, agora encontrou uma Companhia de Atores – a mesma que há cinco anos leva Branca Dias Brasil afora – e ganha os palcos. Além de entreter, almeja lançar luzes sobre um Brasil ainda obscuro e instigante, onde o Brasil acendeu as primeiras luzes, levando cultura e informação ao espectador, tornando-o um pouco mais dono de sua própria História.

E me lembro sempre de meu eterno mestre Cyro dos Anjos, que dizia bastar observar o mundo à nossa volta para escrever. Penso, com igual carinho, em João Bethencourt, outro que tanto me ensinou e confiou em minha pena.

Em tempos de crise, quando a Educação e a Cultura são denegridas e colocadas fora da maioria das pautas, saúdo a Fundarpe e os bravos atores da Companhia Popular de Teatro do Camaragibe, por seguirem apostando em meu trabalho. Cada vez que escrevo algo que implica em poder narrar ao menos um pouco da vida de meus antepassados, sinto-me como se lhes homenageasse a memória. Cumpro meu papel.

Também tive o prazer de ouvir a Orquestra Sinfônica Petrobrás tocar Richard Strauss. O belo teatro (com h) nos leva a viajar por tempos de amenidades, e faz crer num país melhor. A música, lindamente interpretada, arrancou aplausos e pedidos de bis. Isaac Karabtchevsky esteve maravilhoso, como sempre.

Com dificuldade chegamos em casa e enfrentamos a realidade; lemos que Renan Calheiros tem se aproximado de Lula nos últimos tempos, acreditando na aura deste último, um pensando que o outro pode ajudá-lo em seus imbróglios. Lula, Maluf, Renan, Temer, Dilma, Gleisi, Eduardo Cunha, e muitos outros bons companheiros, todos jurando uma inocência há muito perdida, todos lutando contra a Justiça, que ainda tem o Ministro do STF Gilmar Mendes buscando destroçar seus pares e enterrar a chance de reencontrarmos razões para nos ufanarmos de nosso país.

No meio de toda a lama, o idealizador do Rock in Rio, Roberto Medina, participa de um esforço para trazer dias gloriosos à cidade que já foi maravilhosa. Com a Justiça andando nos trilhos e mantendo na prisão os que envergonham seu posto e a população – inclusive o ex-governador Sérgio Cabral, que anda arquitetando, na cadeia, planos de ‘surrar? ’ seu delator – o Rio de Janeiro e o Brasil voltarão a conhecer dias melhores, que sua população tanto merece, cansada, exausta de tanta safadeza. Se Ana de Ferro quer reinar entre os tanoeiros, o povo brasileiro deseja sua cidade renascida.  Então é Rio, ame-o ou ame-o. Não há outra opção.

Um comentário

  1. Eva Britz
    Eva Britz 30 de agosto de 2017 at 22:00 |

    Excelente artigo !

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