Aos pés do Pão de Açúcar

 

Eu tinha 15 anos. Recém completados. Festejados num modelito composto de uma combinação sem alça de tafetá, e sobre ela um tubinho de gaze, bem transparente, com manga comprida, igualmente bem justa, e colado ao pescoço. Do pescoço ao meio do joelho. Mamãe não gostou nada.

-Não está sexy demais para uma mocinha? E ainda por cima, preto.

Um escândalo! Mas eu sei que era, também, um sucesso! No sábado da semana seguinte, minhas amigas estavam com variações em torno do meu tema.

-Está vendo, mãe? Os jovens precisam se manifestar. E a roupa é de moça honesta, está vendo? Mamãe acalmou, a muito custo.

Naquela época, meu dentista era um homem de seus 35 anos, daqueles com ‘mão de seda’. Eu adorava ele. Como dentista, é claro. Que fique bem claro – até porque ele era casado. E eu – fique mais claro ainda – era moça de família. O Júlio, esse era o nome do meu dentista, também gostava muito de mim. Sempre achei que era porque eu sempre ia às consultas cheia de livros em meus braços, especialmente de Psicologia. Eu vivia estudando, só acreditava – ainda acredito – em educação, e me orgulhava de estudar muito, especialmente Psicologia, e a gente batia altos papos.

Claro que eu fazia um baita esforço para acompanhar, a boca anestesiada, cheia de algodão por tudo que é lado. Sem falar naquele aparelho enervante, que já vinha com chafariz e tudo. Mas bem que dava para o gasto, e Júlio nem percebia minha adolescência metida a adulta. Ou, se percebia, apreciava o esforço.

Aí, um dia, no meio de uma obturação mais demorada, eu ali imobilizada, ele me disse que tinha um irmão. Perguntei, a boca adormecida pela injeção:

-E ee… iae ee em”? Quer saber que idade ele tem, meu dentista decodificou. E eu calculei que, se meu dentista tinha mais de 30…

-Meu irmão tem 29, ele respondeu.

Claro que ele continuou falando do irmão sério, advogado, que pouco saía de casa, homem trabalhador estava ali… Uma inteligência!

Um chato, decifrei. E fiquei só no hmm hmm, já longe daquele papo. Ele perguntou se podia dar meu telefone para o irmão e eu, desinteressada, continuei no hmm hmm. Não satisfeito, e querendo cercar pelos quatro lados, ele perguntou se eu anotaria o telefone do irmão…Ele era um pouco tímido, o irmão, Júlio entregou. E eu me ouvi dizendo que ia anotar o telefone! Saí da consulta com a cara dormente e o telefone de um coroa na bolsa.

Bolas! Eu tinha 15 anos, olhos verdes, 60 cm. de cintura, o resto não interessa, mas pesava 58 quilos e 58 quilos com as coisas no lugar tinham, sim, certa importância. Quem precisava de um coroa? A semana passou e nada do cara ligar. Graças a Deus! pensei. Voltei ao dentista e quando ele perguntou:

-E aí, como foi? Respondi, malcriada:

-Não foi!!!

-A timidez…ele observou. Quem sabe você, que é jovem, inteligente…?

Pensei – lá com meus botões – que tinha mais o que fazer.

Só que eu era curiosa e, então, o sábado estava pouco animado; peguei duas amigas e ligamos para o cara. Ligamos, não. A idéia era passar um trote. O cara atendeu a ligação e nós três nos revezamos ao telefone, deixando ele tonto com nossas perguntas cretinas e respostas evasivas. Depois de uma hora, Marcos – este era o nome do irmão de meu dentista – disse que queria conhecer a gente.

Apostou que ia descobrir quem era a verdadeira cliente do irmão – era eu. Minhas amigas se mijaram de rir, macaqueando gestos românticos. Fiquei desconcertada, mas como adorava desafios, aceitei aquele. -Onde nos encontramos? Perguntei, decidida. E ele respondeu, firme:

-Na praia. Na praia??? Gritamos juntas. Jogava vôlei perto da Hilário da Gouveia e nos esperaria lá.

-De maiô? Perguntei, confusa. E ele mandou essa:

-Como é que você costuma ir à praia?

Bom, combinado era combinado. Depilamos muito bem as pernas, axilas e todo o mais necessário, e lá fomos nós para a praia. Chegamos ao local onde estava armada a rede e começamos a pesquisar os homens que estavam jogando. E se for o barrigudo? Aquele já é careca! Olha aquele, como é branquela. O suor do cara, gente! Ele sua verde. Verde! Arghhh…

Todos pareciam muito velhos para nós. Minhas amigas queriam dar no pé. Só que aí chegou na rede um cara alto, magro – nenhum faquir – cabelo preto bem cortado – um pouco cortado demais – mas tudo bem. Até o calção antiguinho passou, mas bigode… Ah, não!!! Bigode, não! Bigode eu odiava!

Já estávamos desistindo quando ele percebeu nossa quase histeria e correu até onde estávamos. Bem na hora que meu amor secreto passava no calçadão e eu acenava para ele, cheia de animação e rezando para que meu querido parasse. Ele passou direto. Já o advogado de calção antiguinho chegou rápido até nós. Tarde demais para fugir!

E veio logo perguntando:

-Qual de vocês é a cliente que meu irmão gosta tanto?

Uma de minhas amigas era uma vistosa ruiva, cheia de sardas enfeitando seu o rosto. A outra era loura de olhos azuis, mas os cabelos… Eu bem aconselhava mas ela nunca ouvia. Os cabelos…Maltratados…Secos…

Eu, modéstia à parte, tinha olhos verdes e cabelos lisos – à custa de muita touca, mas quem ia saber? Havia comprado um maiô novo preto, que deixava bem sinuoso o corpo de 90, 60 e 89 centímetros no lugar certo. Graças a Deus que tinha curvas!!! Marcos olhou para uma, para outra, para as três, sorriu malandro e apontou para mim. As outras riram, aliviadas. E eu, vexada. Ele me convidou para um drink. Que chique, sorri para elas, vingada. Aceitei, principalmente porque não queria brigar com meu dentista; até porque ele me fazia um preço especial e para quem era dura, melhor manter as coisas calmas.

No bar, Marcos pediu um ‘cuba libre’ e eu, instintivamente, pedi…uma coca-cola. Ele me olhou com um meio sorriso, como se varresse minha alma. Fiquei sem graça, claro, mas a coca-cola foi reflexo, força do hábito. E depois, eu ficava tonta no primeiro, no segundo gole de álcool. Não vai dar em nada mesmo, pensei, deixa para lá! Para que gastar energia e enfrentar uma dose de cuba libre? O cara era até gentil, como negar? Mas o golpe de misericórdia foi quando ele se ofereceu para me levar em casa. Naquele momento, tive certeza absoluta de que aquele encontro era o primeiro – e o último. Além do bigode, como se não bastasse o bigode, o homem tinha um carro modelo quarenta e pouco, antiguinho igual ao calção enorme que usava.

O cara é mausoléu, contei assim que encontrei as meninas, curiosíssimas de saber o que tinha acontecido.

Esqueci o Marcos. Mas ele ligou na semana seguinte, disse que a gente podia ser amigo… Pus o cara no devido lugar, confessando que tinha uma grande paixão.

-Ele é o melhor dançarino de Copacabana, confessei, orgulhosa. -De todo o Rio de Janeiro, exagerei.

-Eu espero, ele sussurrou.

-O que você disse? Perguntei. Uma grande paixão é tudo que eu mais quero, ele disse.

-Como quiser, completei…

Minha paixão secreta, numa tarde de cinema em grupo, percebeu que eu existia. Começamos um namoro. Só pode ter sido olho grande, pois em menos de uma semana meu namorado estava amarelão, cheio de hepatite, arriado na cama. Cuidei dele feito enfermeira, sem ligar para o perigo do contágio. Marcos ligava de vez em quando, a gente falava francamente sobre meu namoro, ele muito compreensivo, reafirmando sua amizade, e eu pouco me lixando para a compreensão dele. Queria mais é cuidar de minha paixão, dar sopinha e mingau, passar todo o tempo ao lado de meu paciente enfim conquistado. Eu nem ligava quando meu doentinho tinha ataques de gases. Ele se desculpava, claro. Eu respondia que estava tudo bem. Devia ser a hepatite, a falta de movimentação, eu diagnosticava, comovida. E ele ali, deitado, amarelo, indefesso. Eu jamais reclamei de nada: Paixão de 15 anos.

Depois de alguns meses, meu namorado ficou bom. E fomos à primeira festa juntos, eu oficialmente sua garota. Sapatos com salto brotinho, fechados, que sandália ele só admitia em quem tinha pés de Vênus. Os meus, coitados, nem calo tinham, mas estavam longe do modelo divino. Chegamos à festa – um sucesso a nossa entrada – ele me levou para um canto e fez o primeiro pedido.

-O que você quiser, respondi. E ele me pediu, muito sério, para, no caso de me perguntarem onde eu morava – ele morava em Copacabana – é claro. Mas, por favor, ele sussurrou, se alguém perguntar onde você mora, diz que é na Tijuca. Pelo menos na Tijuca!

-Mas eu moro no Rio Comprido, argumentei, ingênua. Ele cobriu minha boca com sua mão adorada e implorou:

-Pelo menos na Tijuca! O que vão pensar de mim se souberem que namoro uma menina do Rio Comprido? Fiquei meio chateada, triste, até, mas como eu lia Psicologia, dei tratos à bola para compreender as razões dele. Pensei ter entendido.

Só que, lá pelo meio da festa, depois de dois copos de cuba libre, ele fez mais um pedido, e aí, aí não teve Psicologia que o socorresse. Eu pus para quebrar:

– Depois de todo o carinho que lhe dediquei, cinco meses ali, cuidando de você, seu safado, como é que tem o topete de perguntar se pode pegar nos meus…alisar os meus… Protegi meus seios com os dois braços em cruz. Fui ficando roxa, vermelha -, e ele nem aí…

– Sabe o que é? Esse negócio de namoro de mãozinha dada não é bem comigo, docinho.

Olhei para ele como minha avó costumava olhar para meu avô quando estava zangada e exigi que me levasse em casa naquele exato momento. Ele titubeou e eu, então, abri minha bolsa, tirei um livrinho de Psicologia que sempre trazia comigo para alguma conversa de emergência…e atirei toda a minha psicologia na cabeça dele. Fugi dali, correndo. Na rua, entrei num bar pé sujo e, aos prantos, liguei para o meu amigo Marcos. Não é que ele estava em casa? E prometeu vir na hora?

– Não sai daí! Ele me acalmou, do outro lado. Senta, toma um copo de água com açúcar e me espera que chego já.

E não é que chegou? Sem bigode, dirigindo um carro Mercury do ano. Acabara de comprar, explicou diante de meu olhar embasbacado. Ah, sim…Marcos veio de terno. Acabei de chegar de um jantar importante, explicou. Meu Deus, ele ali, dentro de um terno azul marinho de corte clássico, uma gravata elegantérrima…Eu nunca pensei que um homem pudesse ficar tão…tão atraente num terno. Deixei que ele me conduzisse até aquele carro lindo. Chorei copiosamente no banco gostoso daquela beleza de automóvel. Quando me acalmei, elogiei o rosto liso, livre do bigode.

-Quer tal secar os olhos e sair para jantar?

Ele perguntou, bem suavemente.

-Estou mesmo com fome, respondi. Jantamos. No outro dia almoçamos, fomos ao cinema no fim de semana, ótimos amigos.

Minha paixão me ligou na semana seguinte. Desculpou-se, havia sido grosseiro, um cego. Mas eu saberia perdoá-lo, pois já havia mostrado minha grandeza ao cuidar dele, em todo o meu comportamento. Veio me ver e me deu um beijo. E eu senti algo tão estranho no peito que pedi licença e desisti do cinema marcado. Meu exímio dançarino me levou em casa e quis repetir o beijo, mas eu agora estava bem mais tímida, acenei com a mão. Entrei rapidamente no prédio do Rio Comprido. Cheguei em casa, afoita, e liguei para meu já querido amigo Marcos. E ele veio em seguida.

Dois meses depois, na noite de Ano Novo, ele me convidou para subir ao Pão de Açúcar e, lá em cima, pertinho do céu, me deu um anel de noivado. E um beijo de tirar o fôlego. Casamos em julho daquele ano. Meu dentista foi nosso padrinho, claro, enquanto mamãe continuava a olhar para aquele genro balzaquiano meio intrigada. Quando, afinal, não se conteve, me chamou a um canto e perguntou:

-Filhinha, seu noivo não é um pouco passado para uma mocinha de 16 anos?

-Quase 17, só falta uma semana, mamãe. Sorri e a beijei, compreensiva; minhas leituras de Psicologia mostravam-se, afinal, eficientes. No mês seguinte ao casamento, engravidei e o Mercury se foi, trocado por um simpático e econômico volkswagen vermelho de segunda mão. Nem liguei.

Já se vão 50 anos. Já se foi o século. Já se foi o milênio. Nós continuamos juntos, há mais de 30 verões no bairro do Pão de Açúcar, que me sorri a cada dia. Ah…é claro que meu dentista havia passado todos os meus dados para o Marcos, pois ele me identificou fácil demais. De bobo ele não tinha nada. Sempre foi inteligente. E inteligência, como educação, sempre me atraiu. Faz bem à vida.

2 Comentários

  1. Pedro Henrique de Paiva
    Pedro Henrique de Paiva 30 de Janeiro de 2018 at 22:05 |

    Maravilha de cronica/depoimento; leio sempre suas matérias com grande prazer. Abraço no Marcos, que é um campeão.

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  2. Marguita Bergman Zaretsky
    Marguita Bergman Zaretsky 4 de Fevereiro de 2018 at 2:32 |

    Miriam,
    Adoro ler suas historias, mas essa bateu o record !!! reconheci logo meus primos Julio e Marcos !!!! linda historia ! continue sempre escrevendo que so me traz alegrias.
    Desejo de coracao que voces estejam juntos eom saude por muitos e muitos anos ainda.

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