Bereshit


Na época em que eu era criança decorava-se alguns textos bíblicos, que se tornavam exercícios de completamento nas provas de Torá. E um dos que mais me fascinava dizia respeito à criação do mundo, que comemoraremos nessa semana.

Imagina para uma pirralha acompanhar o trabalho de Deus, durante os seis primeiros dias da existência do mundo. Ficou na minha memória, um tanto fantasiosa, a atribulação do Criador em aprontar tudinho para poder descansar no Shabat. A noção de “Tohu vavohu”, que significa caos era muito complicada, para minha cabeça pensante de 7 anos. Assim, como entender a ordem escolhida para construir o mundo?

Sem falar na minha decepção com o primeiro casal da história, que não cumpriu as ordens de D’us e foi, por isso, expulso do paraíso, por seguir o conselho de uma cobra. Cada vez que comia uma maçã me lembrava da história do paraíso.

O tempo foi passando e chegou o momento de eu ter mais tempo para voltar ao estudo da Torá. De completamento passei à fase de busca de entendimento. Bem despacito. As várias interpretações para cada pedacinho do texto sagrado me fascina, assim como a sua atualidade no campo da ética e da nossa vivência prática. É por isso que esse estudo é considerado infinito.

Bereshit é o início de tudo. É o começo da narrativa bíblica, que se inicia com a segunda letra do alfabeto judaico: o beit. Diz-se que a escolha dessa letra tem a ver com o início da palavra Baruch (abençoado) e da palavra Brachá (benção). O próprio formato da letra inicial de Bereshit, em hebraico, nos indica a direção daqui para frente. O que aconteceu antes desse tempo, se é que alguma coisa existiu, não nos interessa.

Segundo Rashi, comentarista clássico da Torá e do Talmud, que viveu no Século XII, considerado o maior de nossos mestres e o erudito bíblico mais brilhante de todos os tempos, Bereshit, que não é um termo coloquial hebraico, tem precedência sobre as demais palavras, pois nela está revelada a meta de D’us para a criação do mundo, isto é, o motivo do Criador para tomar essa decisão.

A letra “beit”, em hebraico, corresponde ao número dois. Então, na realidade são duas as metas que Ele estabeleceu ao criar o mundo e o homem. A primeira é o estudo da Torá e o cumprimento das mitzvot. A segunda é para que houvesse o estabelecimento da terra de Israel. Assim, conclui o meu professor, é impossível que o mundo atrapalhe o cumprimento dessas metas, desígnios de Deus.

Fiquei refletindo, humildemente, sobre essa interpretação de Rashi, levando em conta a nossa realidade nesses últimos séculos.

Mas aprendi, também, que quando o homem reza, ele fala com D’us, ao passo que quando ele estuda, D’us fala com ele. Rashi é o canal por meio do qual D’us fala com o nosso povo. Seu nome se fundiu com a Torá por toda a eternidade.

Então, que as metas do Criador sejam, enfim, cumpridas nesse ano de 5788 e para todo o sempre.

Shaná Tová Umetuká!

Comente