Brasil em pé de guerra

O Brasil não está fácil. Não é país para iniciantes. Ou talvez, sim, pois quem ganha experiência e consciência do que acontece ao redor, sente ganas de emigrar: 90.000 já o fizeram. Não se passa dia sem que alguém me diga que tem parente em Portugal ou na Itália, ou nos Estados Unidos, e vai se mandar.

Ficamos os teimosos, os que já passaram da idade de recomeçar, os doentes, os esperançosos de que um milagre ocorra. Milagre é força de expressão. Diante do esforço hercúleo de alguns juízes, malgrado a atitude infeliz de alguns outros, em cargos até mais elevados, talvez possamos ver um Brasil renascido.

Diante dos escombros de Mossul, pensamos que também vivemos sob escombros. Escombros morais, um país que o descalabro político e empresarial levou à indignação e ao desespero de milhões de brasileiros. Conseguirão eles a reconstrução? E nós? Que dizer dos bilhões gastos para comprar deputados e tentar arquivar sua denúncia presidencial? Por que não há dinheiro para pagar trabalhadores e apenas para pagar mais corrupção? Escombros…

O país sangra, nossa política jaz insepulta, em estado de putrefação. Crescem as favelas, pessoas buscam as ruas ou abrigos públicos por total carência de cumprir com suas obrigações de cidadão. A violência cresce geometricamente. Se já é possível haver malfeitos quando o bom exemplo vem de cima, o que esperar quando jovens sem perspectiva não vêm outro caminho a não ser copiar o que a cúpula do país pratica. E não se envergonham, nossos políticos. E não se envergonham, nossos empresários. Morrem nossos jovens, nossas crianças, balas perdidas por todo lado, guiadas a esmo por jovens sem rumo.

Nunca antes na história se viu um ex-presidente condenado pela justiça. Nunca antes na história se viu um presidente, em pleno mandato, ser denunciado por corrupção. Estamos em guerra contra o descalabro, a corrupção, a roubalheira. Perdemos o casal de primeiros bailarinos do Theatro Municipal por absoluta falta de amor à arte. Não bastassem os camarotes governamentais sempre vazios (político odeia arte), os salários em atraso indigno devido ao roubo sem noção e ganância desmedida de nosso ex-governador Sérgio Cabral, a humilhação de receberem os funcionários públicos, inclusive os do Theatro, comida não perecível e cestas básicas de quem vai assistir à Orquestra ou a um balé, os bailarinos principais vão para a Europa: ela, para dançar na Áustria e ele, na Alemanha.

Mais do que em pé de guerra, a situação tornou-se acéfala, tornamo-nos um país sem pé nem cabeça, ridicularizados mundo afora.

Ruas vêm sendo fechadas para a entrada de estranhos, cada vez mais policiamento particular se vê, custeado por moradores assustados. Sair à noite, nem pensar. À tarde, e com endereço certo. Melhor ir de táxi, pois estacionar virou um perigo. Foi-se o tempo de passear por Copacabana ou Ipanema.

Houve, sim, um bom filme, ’A vida de uma mulher’, com belíssima fotografia, metáforas que requerem a atenção, uma psicologia bem especial e um final interessante. Não é filme de ação, mas sim de beleza e reflexão.

E tem livro para ler, o que ajuda a deixar de lado por algumas horas a realidade asquerosa da política e saborear outra, de uma boa escrita. Mesmo que seja um livro sobre o nazismo. Tudo que é judaico me interessa, e então, ‘A Mulher do Oficial Nazista’ não poderia ser deixado de lado. Conta a história verdadeira de Edith Hahn Beer e sua luta para sobreviver ao Holocausto. Ao fim do livro, após depoimentos de amigos e da filha, lemos que o livro está em fase de produção para virar um filme. Merece, pois a narrativa nos prende todo o tempo. Acabado este, debrucei-me sobre Amós Oz, mais uma vez e sempre, para ler ‘Contos da aldeia’. Sobre este escreverei depois.

Por ora, veremos o que nos traz a segunda-feira. Não nos venha com más notícias, pois será mais do mesmo. O Brasil está em pé de guerra há alguns anos, mas precisamos e merecemos um país melhor. Decerto se encontrará amanhã bem mais perto do que ontem.

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