Brasil em preto e branco

‘Lady MacBeth’ é inspirado em ‘MacBeth’, de Shakespeare. O filme tem bons momentos, a atriz é ótima, mas a trama promete e não entrega tudo. Mais ou menos como alguns delatores na Lava-Jato.

E então, a ida ao cinema fica valendo por mera curiosidade, mas sem prêmio do prazer total. Num roteiro, há que ser autêntico, forte e coerente. Na delação premiada, há que ser isto e muito mais. No caso de um filme, ainda sobra alguma distração. Numa delação picotada, não se faz Justiça, e a Justiça só vale se inteira. Sem desistir, é preciso corrigir o rumo para não perder o norte e pôr tudo a perder, como muitos o desejam. Chega de sofrer.

Falando em sofrer, o que foi o choro do Rodrigo Maia ao receber o socorro para o Rio de Janeiro? Como são sensíveis nossos políticos. Talvez por ter sido mencionado em delação, ele tenha chorado e imaginado que lindo seria se fosse mesmo um bom político e agisse sempre em prol do povo. Mas qual! Os políticos e empresários combinam o roubo, se locupletam sem dó com o mau uso do dinheiro público e depois posam de salvadores da pátria chorosos. Não convencem.

Tampouco o senhor Geddel, que guardava R$51.000.000,00 em malas e caixas num apartamento vazio, mantido apenas para acomodar dinheiro sujo, imundo, nojento, roubado sem piedade de trabalhadores. O mesmo Geddel que chorou ao ser preso pela primeira vez, o mesmo Geddel que se indignou numa passeata contra a corrupção. Chora de novo, numa segunda prisão, que deve, sim, durar anos, se houver alguma lógica nas leis que regem o país. Cadeia longa, muito longa, e que chore muito, pois até o nome de seu filho ele usou ao mentir em juízo, falando de sua ‘honestidade’ em prol de sua cria. Anos atrás, falava-se um político que era tido como Amoral nato, num trocadilho com seu nome. João Ubaldo escreveu que o brasileiro é mau-caráter congênito. Macunaíma é nosso herói mais querido, mas é preciso mudar o disco e reescrever nossa história.

Pedro Collor denunciou o irmão presidente. Antônio Palocci, abandonado no cárcere pelos que ajudou, abriu o bico e contou quase tudo sobre a história de seu presidente na época.

Espontaneamente, sem delação premiada. Guarda trunfos para quando assiná-la. É como ensina a Operação primeiro ocorrida na Itália, Mãos Limpas. O silêncio entre cúmplices de um crime só vale enquanto beneficia ambos. Se um dos comparsas se sentir lesado, não hesitará em contar o que sabe. O mesmo acordo que havia entre os criminosos poderá ser feito com a Justiça, seja para reduzir sua pena, seja para vingar-se do abandono dos cúmplices. Não é estranho que todos os delatores passem a ser estranhos, pessoas sem a menor intimidade com seus delatados?

Também é estranho o que vem acontecendo agora em termos de reviravolta. Com que então, o procurador-geral não é mais uma pessoa idônea, e tem interesses por trás das delações. Sei não, mas isso tudo parece ter o dedo do palácio do Planalto. Confundir o meio do campo, desconstruir a Lava-Jato e seus mentores; o país nunca viveu furacão tão devastador, trágico e perigoso. Nunca antes na história…

Para os amantes de Cuba, recomenda-se mais uma aula sobre mesquinhez, miséria, tristeza, falta de perspectiva e frustração. Basta assistir ao filme Últimos dias em Havana. Povo sofrido e ainda sofrendo com os irmãos Castro, em substituição ao sofrimento com o ditador anterior, Fulgêncio Batista.

Mais alguns dias e o furacão Irma terá passado; Miami e o Caribe começarão sua reconstrução. E o nosso longuíssimo furacão político, quando se dissipará e nos deixará em paz, para reconstruir o Brasil e seguir em direção a um futuro colorido para nossos filhos e netos? Ave, Justiça!

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