Brasil, qual é o seu muro?


Desde os tempos do descobrimento, quando recebemos o nome, na carta de Pero Vaz de Caminha, de Ilha de Vera Cruz, o nosso muro começou a ser construído. Passamos pelas épocas da Colônia, do Reino Unido e do Império, e ele só fazia aumentar. Dizem que a culpa era de Napoleão, que apressou a vinda da família real para o nosso país. O muro passou a contar com mãos estrangeiras ávidas, também, pelo seu crescimento. Formava-se assim a primeira joint venture do Brasil.

Veio a República e cada vez mais o muro se tornava obra de muitos. A princípio, não tinha muita organização. Como o nosso país tem uma dimensão continental, as ações da construção do muro obedeciam aos interesses locais, o que conferia uma certa desigualdade na altura do paredão.

O interessante é que não faltava verba para essa obra. Muito pelo contrário. Podia faltar dinheiro para a educação, a saúde, o saneamento, a habitação, mas para essa construção não faltava.  Entrava governo, saía governo de direita, de esquerda ou de centro, civil e militar; os planos econômicos iam se alternando; os golpes e contragolpes iam se sucedendo, e o muro ia assumindo as proporções da Muralha da China. As grandes empreiteiras do país garantiam a qualidade e a solidez da obra.

Na verdade, o conluio entre os que comandavam o esquema de construção e os fornecedores de mão de obra era tão eficiente, que passou a ser exportado para a América Latina e para a África. Todo mundo invejava a altura e a extensão do monumento tupiniquim.

Hoje esse muro tem nome, sobrenome e contas numeradas nos paraísos fiscais, graças a um juiz de Curitiba e uma turma de jovens procuradores da república, que resolveram fiscalizar o andamento dessa obra monumental, ao contrário de outras instâncias, que eram pagas justamente para fazer esse serviço. E só fizeram se locupletar também.

Não está sobrando pedra sobre pedra. Aonde as escavadeiras dessas autoridades chegam, sai um mar de lama e um cheiro de água putrefata, que infestam o ar do povo brasileiro honesto, trabalhador e cumpridor de suas obrigações de cidadão.

Os construtores do muro, que usavam em seus uniformes o crachá com o nome “foro privilegiado” estão sendo investigados e estão se virando nos trinta, contratando defensores, a peso de ouro, para escaparem da prisão. Muitos deles já estão envergando outras identificações e vislumbrando outros muros, que não imaginavam fazer parte de seus horizontes.

Falando em horizontes, até os do Planalto estão sendo turvados pela sombra do muro do Brasil. E não é pela primeira vez. O que é pela primeira vez é se assistir um super herói, chamado juiz Sérgio Moro, derrubar, com o poder da lei, o muro da corrupção do país.

2 Comentários

  1. Alice Burla
    Alice Burla 6 de junho de 2017 at 1:03 |

    Parabéns sempre com muita lucidez

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  2. Suzana Grinspan
    Suzana Grinspan 6 de junho de 2017 at 9:12 |

    PARABENS!!SARITA!!!COMO SEMPRE VERDADEIRA,E CONHECEDORA DE NOSSA HISTÒRIA QUE VEM SENDO CADA VEZ MAIS DESVIADA DA HONESTIDADE!!!!!!!!

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