Brasileiros em Israel

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Karen Mayer Sagi

Com o grande número de brasileiros que estão indo morar em Israel, a maior dúvida para quem pensa em fazer aliá, mas ainda não tomou a decisão definitiva, é de como será a nova vida em Israel.

Para a maioria, a língua, é o maior desafio, porém, o governo de Israel oferece aos novos imigrantes, o Ulpan, curso de hebraico, durante o período de cinco meses, aproximadamente. A partir daí, cabe a cada pessoa, se dedicar aos estudos, se virar como pode e até encarar um tipo de trabalho mais simples, que jamais pensou em aceitar no Brasil, mas em Israel é uma boa opção para praticar a nova língua.

Conversei com a educadora Karen Mayer Sagi, carioca que foi morar em Israel há 24 anos e hoje é professora de crianças e adultos brasileiros que precisam de apoio para aprimorar o hebraico.

Formada em Educação Especial com mestrado em Coordenação pedagógica, Karen é casada com um israelense e tem dois filhos que falam hebraico, português e inglês. “Sempre procurei falar com os meus filhos em português, pois apesar de serem israelenses e terem como primeira língua o hebraico, acho importante o conhecimento de outras línguas, assim como o inglês, que estudam na escola e com uma professora particular”, diz.

A entrevista com Karen Mayer Sagi, você acompanha a seguir.

.Você ensina hebraico para crianças e adultos. Quais são as diferenças que percebe entre os seus alunos nessas faixas etárias?

– As crianças têm mais facilidade e pegam mais rápido a língua do que os adultos. Em média, uma criança aprende o hebraico em 6 meses e também neste período já estão entrosadas na escola e no ambiente social. É claro, que o nível de conhecimento não é igual ao dos israelenses, mas dá para se virar bem. No caso das crianças brasileiras, que estão em menor número nas escolas e não formam panelinhas como os russos, ingleses e franceses, isso facilita ainda mais, uma vez que não se acomodam e precisam correr atrás para aprender a nova língua.

No caso dos adultos, depende do processo pessoal, do nível de conhecimento do hebraico, se já estudou em escola judaica.  Só o Ulpan, não resolve, pois a pessoa aprende o básico. Muitos brasileiros começam a trabalhar em qualquer área para entrar no mercado de trabalho e para aprender o hebraico, só depois então, tentar uma colocação em sua profissão.

.As crianças aprendem a falar com mais facilidade do que os adultos?

– Dou aulas para crianças que estão desde a 1ª até a 8ª série e que já estão pegando o sotaque hebraico. Dificilmente, um adulto vai falar sem o sotaque de sua língua natal. Eu, cheguei aqui em Israel com 19 anos e até hoje falo com um pouco do sotaque brasileiro. Em relação à criança, depende da personalidade, se é uma criança mais expressiva e se já saí brincando, se introduzindo, naturalmente.

.Que tipo de trabalho os brasileiros procuram para aprender melhor o hebraico?

-É cada vez mais comum encontrarmos brasileiros trabalhando em lojas de shopping, na Super Farm (a maior rede de farmácias de Israel), como caixas de supermercados ou pegando muitos bicos, para ter um salário melhor. Outra profissão, bastante procurada, é de ajudante de Jardim de Infância. Essas são  ótimas oportunidades para aprender a língua.

.É muito difícil para uma pessoa com formação superior conseguir um emprego na sua área de atuação?

-Tem muita gente, que chega em Israel, formado, com diploma e experiência, mas sem o hebraico, não adianta. Tenho uma aluna que é uma excelente profissional em sua área, com bastante experiência, mas por causa do pouco conhecimento da língua, está com dificuldades para conseguir uma colocação na sua área. Dou aulas para ela, inclusive, simulando entrevistas de emprego para melhorar as suas chances, uma vez que o domínio da língua é essencial para o seu sucesso profissional.

Então, ao meu ver, a maior dificuldade para o adulto, é conseguir um emprego no mesmo patamar que tinha no Brasil, pois é preciso revalidar o diploma, no caso de médicos, psicólogos, advogados etc, o que é muito difícil e leva tempo. No entanto, no dia a dia, o imigrante se vira bem com o inglês, pois os moradores locais têm boa vontade, mas no mercado de trabalho é diferente.

.Quais são os maiores desafios que seus alunos enfrentam?

– Na verdade, sinto que é a sensação de não saber se expressar, no caso das crianças de se sentirem como bebês. Se eram bons alunos, tinham ótimas notas e de repente, passam a não entender nada e aprendem com muita dificuldade. Existem escolas aqui que são mais preparadas para receber os olim, mas há também escolas que não são preparadas. Se a criança está numa escola que não tem olim, tem que se virar sozinho. Isso dificulta mais, pois não tem com quem dividir essas dificuldades.

.Qual a dica que você pode dar para quem pretende fazer aliá?

-Primeiro, respirar fundo e saber que você vai dar 10 passos para trás para começar a andar para frente. Saber ser humilde e se posicionar nessa nova realidade. Entender, que o país tem toda a vontade de absorver o imigrante, mas que o processo de adaptação é da pessoa, o quanto está disposta a dar duro. Se integrar à sociedade e não reclamar de cada coisa que acontece de errado, porque a vida aqui é diferente, a cultura, a mentalidade. Ser diferente não significa ser ruim. É diferente do que a gente conhece, é uma postura mais direta. Os brasileiros, geralmente, dizem que o israelense é mais ríspido, eu entendo que é um jeito mais direto de ser. Não significa grosseria, significa que a resposta é sim ou não.

Quanto ao hebraico, se puder  vir do Brasil com uma base, tentar estudar o quanto antes, é sempre melhor. Para qualquer país que se escolha viver, a língua é o primeiro e o maior desafio a vencer. Tentar entender o mercado de trabalho e fazer uma preparação para a nova realidade.

A família Fajngold

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A cidade de Ra’anana está localizada no distrito Central, com 74 mil habitantes, cerca de 20 quilómetros de Tel Aviv. A cidade foi fundada em 1922 por pioneiros judeus dos Estados Unidos.
A cidade hoje é o lar de muitos imigrantes dos países anglo-saxônios como Estados Unidos, Reino Unido e África do Sul, além de nos últimos anos ter recebido grande imigração de franceses e agora de brasileiros.
É muito comum se ouvir português nas ruas ou encontrar brasileiros trabalhando em diversos setores do comércio local.
Ra’anana é uma das cidades mais ricas de Israel, extremamente segura e com um alto nível de qualidade de vida. Há também muitas indústrias de tecnologia, como a AMDOCS, NICE, HP e Micro Soft. Em Ra’anana encontra-se Bet-Lewinstein, um hospital de reabilitação de doentes graves e uma sede da Universidade Aberta de Israel, bem como outras instituições de área de saúde reconhecidas em nível nacional, sem falar das ótimas escolas da cidade.
Os cariocas Fernando e Tatiana Fajngold chegaram à Ra’anana há 5 meses e após alugarem um apartamento de temporada, decidiram ir morar num novo bairro da cidade, o  Lev haPark. Pelo apartamento de sala e três quartos pagam cerca de 5 mil reais, o equivalente ao que recebem de ajuda de custo do governo, nos primeiros meses de moradia no país.
A escola do filho Bruno (que tem aulas particulares com Karen Mayer Sagi), é bem próxima à residência da família e de acordo com Tatiana Fajngold, a taxa anual cobrada pela instituição de ensino público é em torno de 600 reais, porém, por serem novos imigrantes, essa taxa, este ano, não foi cobrada do casal.
Em relação ao IPTU, o governo oferece desconto de 90% aos moradores no primeiro ano de estadia, além do Plano de Saúde que também é acessível a todos israelenses, sem exceção.
O casal que tinha uma empresa de Festas Infantis na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, planejava há alguns anos mudar do Brasil e Israel foi o país escolhido.
Apesar das dificuldades iniciais, reconhecem que o lado mais positivo da mudança é a segurança da família, além de todas as vantagens de morarem num país de Primeiro Mundo.

Um comentário

  1. CARLOS WAJNBERG
    CARLOS WAJNBERG 11 de janeiro de 2017 at 16:34 |

    Achei muito boa a reportagem.
    Alem de confirmar algumas coisas que já sabia sobre Alia,trouxe novas informações mostrando as realidades deste assunto.

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