Como deixamos isso acontecer?

Charge Aroeira

 

A nossa reação diante de tal indagação é de indignação. Nós quem, cara pálida? Me inclua fora! Trabalhamos, pagamos os impostos, exercemos a nossa cidadania com lisura, sempre dentro da lei. Mas pensando bem, somos, também, responsáveis pelos acontecimentos lamentáveis do nosso estado.

Afinal, elegemos os nossos dirigentes fazendo sempre a escolha dos males o menor. Ao longo da história, tivemos a fama de ser a capital mais politizada do país. E aí deu no que deu. O nosso último governador condenado a 45 anos de cadeia. O atual, deixa para lá. O Rio sitiado e ele em sua casa de campo no interior. O prefeito, como diz um amigo, já tomou posse?

Somos uma população refém da incúria, do descalabro administrativo, da incompetência de suas excelências, em todos os níveis. O estado de anomia, que tomou conta da nossa população de norte a sul da cidade, visível a qualquer hora do dia e da noite, vai sugando a nossa energia vital. A nossa adrenalina vai sendo consumida a cada pessoa, que se aproxima da gente, seja a pé ou motorizada.

Cada decisão de trajeto, mesmo o lado da rua que se escolhe faz parte de um estudo de situação, próprio de um Estado Maior. O problema é o pânico, que nos acomete, quando pisamos terreno desconhecido.

Interessante é que quando visitamos terras nunca antes navegadas, nos invade uma coragem e uma segurança, que nos fazem andar para cima e para baixo de metrô ou ônibus. Os passeios à pé são feitos de modo displicente e nos sentimos respeitados até no atravessar de ruas.

Mas voltando à nossa selva. As perguntas que não querem calar é se fuzis e outras traquitanas, usadas pelos meliantes, nascem em nosso solo ou dão em árvores? Eles sobem nos morros pela força do pensamento? Por que as Forças Armadas não cumprem o seu papel constitucional de vigiar as nossas fronteiras? Por que as autoridades, do nosso estado nunca iniciaram um processo verdadeiro de urbanização de nossas favelas? Só mudar o nome para comunidade parece não ter adiantado muito.

Na outra ponta, o consumo cada vez mais frequente de drogas pelos jovens e não tão jovens de nossa cidade, incentivam o tráfico e a violência. O ato já considerado inocente, pelos politicamente corretos, de “puxar fumo” por aí, alimenta uma cadeia de crime e ilicitudes, que geram os Nem, Rogério 157 et caterva. Por que não liberar geral, deixando que o indivíduo exerça o seu livre arbítrio de ir se matando, aos poucos.

O governo taxaria o produto cobiçado como faz com as bebidas alcoólicas, o comércio das drogas entraria na balança de pagamento do país, tal a sua grandiosidade, e os atravessadores perderiam o seu espaço, assim como os corruptos e corruptores. O dinheiro investido nessa guerra sem fim poderia ganhar uma melhor destinação, como educação e saúde.

Aliás, falando em educação, as crianças das creches da prefeitura já aprenderam a se deitar no chão quietinhas, para se defenderem das balas de fuzis. Esse é o aprendizado que a cidade está legando para os seus pequenos.

Quo usque tandem abutere, governantes, patientia nostra?

 

Um comentário

  1. chaia zisman
    chaia zisman 26 de setembro de 2017 at 16:18 |

    Lúcida e bem escrita, defende bem seu ponto de vista. A dúvida é: se liberar diminuirá o número de marginais mas provavelmente aumentará o número de usuários, de doentes, etc. Com que cabeças o Brasil contará no futuro? Como é o ditado?- Se correr o bicho pega,se ficar o bicho come.

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