Conto de Carnaval


Meio sem noção, desembarcou na antiga rodoviária do Rio, num domingo de carnaval. Era o ano do quarto centenário da cidade. Chegou como Tonho, mas logo foi batizado de Tonhão, tal o volume do seu corpo. De mala e cuia na mão, foi levado de roldão pela multidão de um bloco, que seguiu empolgado até a Avenida Rio Branco.

Não se lembra como, tarde da noite, só com a cuia, chegou no tosco barraco do irmão, que morava na Mangueira. Se acomodou no chão de terra mesmo e dormiu até a quarta-feira de cinzas.

Muito falante e trabalhador, Tonhão logo arrumou trabalho numa obra de um prédio muito grande, lá no centro da cidade. Naquela época sobrava emprego e faltava mão de obra. Era um faz tudo, mas o que gostava mesmo era de virar a massa. Como outros operários, só ia para casa no fim de semana.

Ocupava uma vaga no imenso barracão, que ele mesmo ajudou a construir. No calor era quente demais, e no frio acordava congelado. Economizava cada tostão para ter a sua própria moradia.

Na Mangueira, já proprietário de um barraco de zinco, gostava mesmo era de armar a rede, do lado de fora, e admirar o céu com a lua brilhando, próxima de sua casa. Mas antes, dava sempre uma passada na quadra da Mangueira para tomar umas biritas e escutar os bambas cantarem e batucarem naquelas mesas cobertas de plástico rosa e verde.

Tanto fez que no ano seguinte de sua chegada, já tinha arrumado um lugar no desfile na Presidente Vargas. Como era muito forte, foi convocado para ser empurrador de carro alegórico. Via o carnaval de sua escola, por uma fresta na engrenagem, mas ouvia a voz de Jamelão, como se tivesse cantando só para ele.

Quando terminava a função, não sentia mais os braços, nem as pernas. Exausto, emocionado, dividia com os companheiros do asfalto a glória de levar a escola aos primeiros lugares. Um dia inesquecível foi quando Cartola, meio bêbado, o abraçou depois do desfile. Até escreveu para mainha sobre esse abraço.

Passou muito sufoco quando o carro cismava de não obedecer aos comandos de sua equipe. Com a vista limitada aos pés dos passistas, escutava as broncas vindas de todos os lados. Era palavrão que não acabava mais. Mas no fim do desfile, ver a belezura da Rosemary, e o gingado gostoso da Gigi da Mangueira compensavam qualquer aborrecimento.

A sua outra paixão foi entrando devagarinho em sua vida. Clotilde era o seu nome. Para os amigos era Crô. Uma nega para ninguém botar defeito. A paquera começou na quadra da escola e continuou por toda a sua vida. Não tiveram filhos. Deus não quis. Mas eram padrinhos de muitas crianças lá do morro.

Quando completou setenta anos foi promovido. Saiu de debaixo do carro alegórico direto para a ala dos diretores da escola. Foi uma promoção por merecimento.

Quando recebeu a roupa do desfile, um terno branco, quase teve um piripaque, que se consumou, mais tarde, no meio da avenida, quando, enfim, ele pôde participar do desfile da verde e rosa, ao vivo e a cores.

Acordou na ambulância do SAMU, com Crô ao seu lado, e uma moça de branco, de cabelos compridos providenciando a sua remoção para o Souza Aguiar. Deu um pulo. Se livrou do soro e puxou sua mulher até o outro lado do Sambódromo. O coração parecia que ia saltar do peito. Mas aguentou firme e foi voltando à calma.

Neste ano, está sendo convencido a assistir o desfile pela televisão. Crô já prometeu mundos e fundos para ele desistir de ir ao Sambódromo. Até liberar a cerveja durante a passagem da Mangueira.

Tonhão ficou de pensar… De que vale viver sem desfilar pela Mangueira…O amor pela mulher, talvez…

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