De estadistas e suas antíteses

Yuval Noah Harari, em seu maravilhoso Homo Deus, conta como o ditador romeno Ceasescu foi derrubado com uma vaia que se elevou da multidão que se juntara para ouvi-lo, em mais um de seus longos e sombrios discursos. E a vaia cresceu e se tornou uníssona e um perplexo tirano viu ali cair seu reinado de violência e humilhações e despotismo. Yuval ensina que as massas de milhões são controladas por alguns poucos milhares de aproveitadores, simplesmente porque estes têm a capacidade de se organizarem. E aí a gente se pergunta como pode ser que num país como o nosso, de 220.000.000 de habitantes, um pequeno grupo mantenha uma vastíssima população sob rédea curta, presa a uma realidade onde impera a desigualdade social, o descaso, a má qualidade de vida.

Não saímos às ruas em passeatas diárias, não nos indignamos o suficiente para exigir melhores Educação, Saúde, Segurança, Trabalho. Dignidade. Ao contrário, desde que Lula admitiu em público que não lê, posando com um livro de cabeça para baixo – decerto detesta livros, ou faz o jogo (o que o vizinho norte americano Trump repete, ocupado com o twitter, e Bolsonaro, aqui mesmo, afirma trocar pelo whatsapp), a Educação no país desce escada abaixo. Escolas-modelo como a Vocacional, em São Paulo, fechada com a ditadura, deviam, ao contrário, florescer às centenas. No Rio, a escola do SESC-DN brilha, solitária, para alunos sem chance de pagar as altas mensalidades das escolas particulares.

Assisti a três filmes sobre Winston Churchill em pouco tempo. O que está em cartaz, de Steven Spielberg, mostra um estadista que conhece livros em profundidade, cita autores romanos com facilidade, e nos mostra, com emoção e garra, como um povo forte deve lutar para manter sua sobrevivência com liberdade. Não há liberdade sem educação. Não há um povo forte sem organização de grupos que lutem pela melhora real de seus pares.

Winston Churchill anda de metrô para sentir a vontade do povo. Nossos políticos, ao contrário, se escondem atrás de muros e carros blindados e seguranças. Insistimos em fazer feio. Insistimos em permitir que maus presidentes nos empurrem goela abaixo ministros nada confiáveis, a mais recente, do Trabalho, enrolada até o pescoço com dívidas trabalhistas. Vergonha, vergonha, vergonha. Roberto Jefferson anda injuriado com a demora da posse da cria. Para não falar no presidente do Detran com 120 pontos na Carteira, no diretor da PF cuja nova esposa tem fotografia nas redes sociais enrolada numa sensual barra de dança, em juízes venais, em tantas figuras públicas cujas posturas estão longe da probidade.

Gilmar Mendes ganhou marchinha de carnaval ridicularizando suas atitudes nada republicanas. Um vídeo mostra o mesmo Gilmar Mendes sendo hostilizado por uma senhora ao encontrá-lo na rua, em momento de descontração. É flagrante o seu desconforto, mas ele faz tudo por merecer. E merece. Sua atitude consegue suplantar a de Toffoli e a de Lewandowski, o que não é pouca coisa. Quantos políticos, empresários e filhos destes vimos sendo hostilizados nos últimos tempos? O povo está a ponto de explodir.

Ameaças contra os julgadores de Lula. O homem que está acima da lei não admite ser julgado. Pediu desculpas pelo Mensalão quando foi a Paris, mas logo voltou, pensou melhor e decidiu que não existia nenhum Mensalão. O PT fazia política como todos e ponto final. Final?

Temos um longo caminho até o futuro. Por ora, nossa governança, de joelhos, segue para trás. O jornal nos embrulha o estômago. Não pela Imprensa, mas pelo que ela é obrigada a testemunhar e a transmitir. Winston Churchill recorre a Cícero, numa cena de ‘O destino de uma nação’, que todos devem assistir, especialmente nossos políticos. Chamberlain renuncia porque se sabe incapaz de gerir o país naquele momento. O Brasil está com a cabeça na boca de um tigre. Não é hora de escorregar, e sim de lutar pela liberdade e pela dignidade. Exigir o que nossos impostos pagos merecem. Exigir justiça para os que envergonham o país. E citamos Cícero, que sempre nos ajuda: Quousque tandem abutere, ó políticos, patientia nostra?

Tem peça nova na praça. A vida de Bibi Ferreira, nossa atriz cantora que ainda está na ativa, aos 95 anos, é contada num musical, e merece a atenção de todos nós. A Cultura segue sendo um ato de Resistência nestes momentos sombrios que antecedem nossa organização e uma enorme vaia que mude o status quo, já insustentável. Que surja um estadista. Ou que iniciemos um sério processo de educação, para fazer emergir um entre nossos jovens. Do jeito que está não dá mais para ficar.

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