Destruir tudo

‘Morte Acidental de um Anarquista”, de Dario Fó, está em cartaz no Teatro dos Quatro. Após muito trabalho e confusão para obter ingressos, vitória final e lá fomos nós, marido e eu, assistir ao desempenho fantástico de Dan Stulbach. O elenco é bom, mas ele se supera a cada cena. Delícia pura.

Brinca com a plateia, obtém sua intensa participação (houve quem perguntasse se trouxera a raquete), com ideias para usar na peça. Não faltaram Fora Temer, Fora Lula, Fora Dilma, Lava-Jato, Delação Premiada, ‘Não tenho provas, mas tenho convicções’, Carmem Miranda, ‘Adriana, volta para Bangu’, ‘Todos para Bangu’, Bolsonaro (quem gritou o nome não se identificou ao chamado de Dan). O ator aproveitou bem o silêncio do autor do grito.

Cada sugestão foi inserida no texto e trouxe muito riso, em especial quando Dan alegou que poderia se disfarçar de Carmem Miranda (apontou para a dona do nome), e fez os gestos vivazes da famosa cantora. Aproveitamento máximo de ‘cacos’, fartamente obtidos, graças e através de nossos corruptos, que a cada dia se superam em vergonhosas e enlameadas atitudes.

A uma certa altura, fica até difícil identificar onde termina o texto e começa a improvisação do elenco, mas o resultado é uma comédia que funciona muitíssimo bem. Enfatize-se o carisma imenso de Dan Stulbach e temos um projeto para durar muitos anos. Que as Musas do Teatro jamais nos abandonem; o país precisa muito delas, e do Teatro como um todo. A recíproca é mais do que verdadeira.

Falando em musas, Elisa Lucinda e Ivan Cavalcante Proença palestraram na Academia Carioca de Letras. O tema era Carolina de Jesus e gerou confusão em torno de seu livro ‘Quarto de Despejo’. Literatura ou não? Ivan lembrou os intelectuais que, à época, afirmaram que o livro não era literatura, e afirmou pensar tratar-se mais de um diário emocional, ao que Elisa rebateu com ênfase, saindo em defesa da escritora.

Ivan Cavalcante Proença decerto não pretendeu ofender ninguém ao mencionar os cânones clássicos que definem literatura, nem Elisa Lucinda, que manifestou sua experiência de vida e elevou sua voz pelos que não a possuem, como fez Carolina de Jesus. O embate acabou em troca de e-mails entre os palestrantes.

Como já escrevi, Elisa se enganou ao dizer que não há quadros sobre Auschwitz, e também ao usar a palavra holocáustica para falar da escravidão que atingiu os negros por quase 400 anos. Holocausto é um termo muito, muito pesado, e deve ser contextualizado com rigor.

De todo modo, acredito que negros e judeus sofreram muito e não cabe medir o tamanho de cada dor. Dar voz aos sofridos, humilhados, massacrados, eis a melhor solução.

E que resposta melhor para um negro, cujos mercadores e donos alegavam não ter alma e ser mera ´peça’, do que ter sucesso financeiro e assento numa academia Carioca de Letras, como Martinho da Vila, por exemplo, compositor de primeira e autor de mais de uma dúzia de livros?  Que resposta melhor do que uma Elisa Lucinda, linda e inteligente, de oratória instigante, autora de 18 livros de rica poesia, atriz, jornalista? Talvez ela também venha a ter uma cadeira na ACL. Quem sabe? E Machado de Assis? Joaquim Barbosa? Uma lista de vencedores em várias áreas que mostram sermos todos donos de voz, e que esta voz brota de oportunidades em Educação e Cultura.

Para os judeus, a resposta à servidão no Egito (mais de 200 anos), à Diáspora de 2000 anos como cidadãos de segunda classe, às Cruzadas, à Inquisição que nos queimou aos milhares, ao nazismo, que dizimou 6 milhões de judeus? Que resposta melhor do que sobreviver e escrever e conseguir de volta seu país bíblico e se aprimorar sem descanso, lutar pela igualdade e buscar a felicidade?

Se alguém tentou acabar com negros ou judeus, a resposta é estarmos aqui. O que precisamos destruir é o ódio entre as pessoas, a corrupção dos políticos, a arrogância dos poderosos, tudo que é contrário à humanidade. Destruamos tudo que nos impede de atingir uma convivência civilizada. É preciso destruir tudo, menos as provas que Léo Pinheiro guardou cuidadosamente, apesar do pedido tão amigo.

Um comentário

  1. Una Proença
    Una Proença 29 de abril de 2017 at 6:21 |
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