Diário de Anne Frank ganha versões adaptadas ao século 21

Ari Folman no estúdio de animação

Com 50 milhões de cópias vendidas, o diário escrito por Anne Frank entre 12 de junho de 1942 e 1º de agosto de 1944, ganha agora duas novas versões adaptadas ao século 21. Criadores de A Valsa de Bashir, animação indicada para o Oscar e vencedora do Globo de Ouro de filme estrangeiro em 2009, o roteirista e diretor de cinema Ari Folman e o desenhista David Polonsky lançam O Diário de Anne Frank em quadrinhos.

Folman prepara ainda uma versão em animação para o cinema, que já teve  divulgação de suas primeiras imagens, que trará um novo olhar sobre a história de Anne Frank. O projeto está sendo idealizado a partir de uma combinação da tradicional técnica dos desenhos feitos à mão com a animação em stop-motion.

Para desenvolver os personagens, Folman está trabalhando com o artista plástico Andy Gent, do departamento de arte de O Fantástico Sr. Raposo (um filme de animação de 2009), que vai criar as miniaturas utilizadas nas partes em stop-motion. Para as sequências em animação tradicional, o diretor terá o auxílio do ilustrador David Polansky.

O filme, ainda sem título, surge por conta da “necessidade real de novo material artístico para manter a memória de Anne Frank viva para as novas gerações”, explica o cineasta israelense.

Folman é filho de sobreviventes do Holocausto, que foram levados para os campos de concentração de Auschwitz, um dia depois de seu casamento,  por isso seu interesse por contar a história da menina judia que relatou em seu diário os anos que passou escondida com sua família e outros judeus em Amsterdã durante a Segunda Guerra Mundial até que os nazistas descobriram seu esconderijo e a levaram para um campo de concentração Bergen-Belsen, onde ela morreu no fim de fevereiro de 1945, aos 15 anos de idade.

A adaptação para os quadrinhos, que será publicada em mais de 50 países ao longo de setembro e outubro, foi apresentada em Paris e mobilizou jornalistas de mais de 60 nacionalidades. Converter o livro para graphic novel exigiu dos autores um brutal esforço de concisão. Se fosse transposto na íntegra, a obra em quadrinhos teria 3,5 mil páginas. Por isso, o diário gráfico traz a essência do texto, sintetizado e adaptado por Folman. Sua maior riqueza em relação ao texto original talvez seja o fato de ter sido imaginado e traduzido para os quadrinhos pelos traços de Polonsky, às vezes divertidos, não raro oníricos e trágicos – como era o próprio “Kitty”, o diário escrito por Anne Frank até sua morte, no campo de concentração de Bergen-Belsen, em março de 1945, no apagar das luzes da 2.ª Guerra.

Um dos cenários do filme de Ari Folman

Como nas confissões íntimas da menina, a edição em quadrinhos é fiel à sequência cronológica da narrativa. Estão na adaptação a angústia do início da perseguição nazista, a incompreensão pela violência, depressão, dúvidas e sonhos da adolescência, assim como sua análise cortante sobre a Europa sob o jugo de Hitler. “À noite, costumo ver longas filas de gente boa e inocente com crianças chorando, andando sem parar até quase caírem. Ninguém é poupado. Doentes, velhos, crianças, bebês, todos são forçados a marchar em direção à morte”, escreve Anne Frank, em trecho do original mantido por Folman. Na ilustração, Polonsky desenha rostos magros, olhos tristes e mãos ao alto que falam por si.

Kitty, a amiga ficticia de Anne é a narradora do filme, ainda sem data prevista.

Na apresentação do livro, em Paris, os autores comentaram o desafio de traduzir para uma nova linguagem um clássico da literatura que é muito mais do que um best-seller mundial, por seu conteúdo documental ímpar. Ao Estado, Folman lembrou o impacto da leitura do Diário de Anne Frank quando se é adulto, e disse ter imaginado um livro voltado para crianças e adolescentes. “Um jovem não consegue apreciar o valor literário do livro como um adulto”, lembra Polonsky. Por isso, os autores frisaram, na adaptação aos quadrinhos, os temas que atravessam o imaginário dos jovens. “Quando se é adulto, lê-se o diário sob o prisma de uma adolescente falando de você, adulto. Quando se lê ainda garoto se tem outra perspectiva”, explicou Folman. “Adolescentes e crianças, em especial meninas, vão encontrar o que eles precisam no diário original: a relação com a mãe, com outras crianças, o amadurecimento sexual.”

 Anne Frank

Isso não significa, porém, que a versão em quadrinhos seja infantilizada demais ou tenha perdido seu caráter político. O contexto opressor da guerra é onipresente. Em um deles, a família aparece adormecida em torno da mesa de jantar, e no texto se lê: “Querido Kitty, o número de ataques aéreos britânicos cresce a cada dia. O Hotel Carlton foi destruído. Aviões ingleses carregados de bombas incendiárias caíram bem em cima do Clube dos Oficiais Alemães. Não temos uma boa noite de descanso há séculos”, conta Anne em quadrinho ilustrado com a cidade em chamas.

Para Folman e Polonsky, o diário gráfico e a versão para o cinema são uma missão: a de ajudar a eternizar a história do holocausto entre novas gerações.

 

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