Dias de fé

Os últimos dois anos me encontraram em Israel durante Rosh Hashana e Yom Kipur. O significado de estar numa sinagoga israelense é indescritível para quem vive fora daquele pequeno e mágico país, um presente e um mergulho direto no coração mosaico.

Este ano, passamos as Grandes Festas numa sinagoga. Ouvir o Kol Nidrei cantado por um chazan de belíssima voz, aliada a um coro de níveis altíssimos também foi uma sensação nova.

Uma ópera! A história contada entre cantos e coral dava a sensação, em muitos momentos, de uma ópera. Fã que sou desse estilo de música, apreciei muito a cerimônia. Preferia, para ser sincera, que apenas rezas e cantos nos chegassem ao ouvido. Mas nada diminuiu a beleza da festa mais sagrada para nós, judeus. E que alegria compartilhar nosso dia tão especial com dirigentes da fé católica, que lá estavam para demonstrar que as religiões se irmanam e se completam, sem competições menores.

O judaísmo é tolerante, aberto. Sem fazer proselitismo, abrimos as portas para todos os irmãos. O encontro com Deus pode também estar fora de sinagogas. Alguns grupos se reúnem em salões de clubes, em praças, perto do mar, em parques arborizados, onde sentirem melhor a conexão com o divino. Não é segredo que filósofos já definiram a presença de Deus em toda parte, em toda a natureza. Onde quer que alguém pratique o amor e o bem ao próximo, ali haverá uma centelha de Deus. O homem estará em Deus se Deus estiver no homem.

Ao cair da noite, a reunião em família e um jantar com comida típica para celebrar a inscrição do nome em mais um ano.

Na manhã seguinte, a realidade carioca se impõe. Mais denúncias de malfeitos e mais facilidades para devedores da Previdência, fortalecendo a ideia de que vivemos no país ideal para devedores. Manter as contas em dia é obrigação apenas da população, do cidadão comum. De novo, o presidente Temer incentiva o inaceitável e alimenta a corrupção. Não pode, presidente. Basta!

Se Temer saísse agora e desse a vez para alguém com menos desaprovação popular do que ele, poderia ajudar nas eleições de 2018. Mas qual! Prefere sangrar e fortalecer a Oposição, desenvolvendo um quadro nunca antes visto no país. Um grupo tão grande de investigados em posições de Poder é inadmissível, imperdoável. Demonstra o claro desamor ao país e ao povo.

Hoje, Jucá xinga Janot ao ver seus filhos citados por envolvimento com a corrupção. Os frutos não caem longe da árvore, diz a Bíblia. Ofender não resolve. Enfrentar, talvez. Confessar, por certo. Emendar-se é o ideal. Por um país melhor e mais justo. Em Roraima ou em qualquer outro estado.

O ministro Gilmar Mendes também extrapolou. Decidiu, igualmente, sair dizendo palavras de baixo calão referindo-se a Rodrigo Janot – ouvi-lo é proibitivo, uma vergonha para a Corte mais alta do país. Por que não se defendem e provam sua inocência em vez de acusarem e xingarem? Quem grita perdeu a razão, diz outro ditado. Merecemos mais. Mais compostura, mais educação, mais dignidade por parte de toda essa República baratinada (eufemismo meu) em que nos transformaram esses homens que insistem em sujar nosso nome diante do mundo.

A fé e a oportunidade de obter perdão por seus pecados exige dos judeus que cada um se conscientize de seus erros e pratique a honestidade e o bem a partir do perdão do Yom Kipur. O mesmo vale para cada ser humano. Sem Praticar a honestidade e a dignidade a cada dia, ele só faz afastar-se de seu vínculo com Deus, seja lá a forma que Ele tenha em sua fé particular. No geral, tudo se resume a tratar o próximo como gostaria de ser tratado.

Ser bem tratado me faz lembrar que faleceu, há poucos dias, José Arthur Rios, meu confrade da ACL. Escritor e advogado, aos 96 anos era um homem de vasta cultura, tanto na literatura em geral como na área específica de Direito. Advogado, conhecia lei como poucos, e trazia dignidade e integridade em cada ato. Escreveu livros de ensaios sobre grandes escritores, dava pareceres irrefutáveis, e suas palestras eram divertidas e instigantes. Um exemplo de ser humano, mais um nome a ser seguido pelas centenas de hoje investigados e condenados na maior operação de Justiça que o país conheceu.

‘A garota do armário’ é um filme aparentemente leve, mas mostra como é triste e duro amadurecer e entrar no mundo dos adultos, onde a bondade e honestidade perdem lugar para o lucro. Adultos que reconhecemos Brasil afora – por exemplo, nos prefeitos cassados a cada semana (um horror de estatística), em cada ministro investigado (como se fosse algo comum ser ministro e investigado por crimes), em cada ato que nos indigna e estarrece. O Brasil acabou? Não!

Mas precisamos urgentemente voltar a ter fé em nosso país.

Um comentário

  1. Ronaldo Pollak
    Ronaldo Pollak 3 de outubro de 2017 at 22:09 |

    Excelente, Miriam. Não poderia fazer melhor comparação.

    Pelo respeito à nossa religião é que não vemos judeus políticos , do governo ou oposição serem investigados. Não compactuam com essa baixeza. É da nossa índole.

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