Empréstimo

 

Antes vieram os rodeios, supondo que seria difícil ou impossível tomar algo de valor emprestado.

Mas foi no embalo eufórico do ano novo que tudo deu certo e Dona Ritinha pegou o carro de favor.

Posicionou o banco para a frente de modo a alcançar o acelerador, mirou a rua, verificou os retrovisores, faróis, tudo às risadinhas, que a compusesse num par perfeito com a máquina que guiaria naquela primeira manhã do ano de 2018.

Deixou a zonal sul num estalo, rumo à Barra da Tijuca, traçando a rota pela Avenida das Américas, ela, uma Rita solta, liberta pelo continente, mirando adiante e mirando através do retrovisor, sem deixar escapar minúcia do que está por vir nem, muito menos, pormenor do que fica para trás.

E lá foi ela, as mãos suando ao volante. Se você já dirigiu pelas Américas, sabe que pode seguir reto a vida inteira. Basta ir adiante. Mas, uma grande via pode ser também assustadora. Apegada com firmeza, Rita avançou cheia de medo, medo, pavor de que lhe faltasse a direção. O pé direito no acelerador. A bolsa aberta sobre o banco do passageiro. O cinzeiro, o porta luvas, abarrotados de moedas, muitas moedas, até não aguentarem; tudo a ponto de transbordar.

Só vendo o propósito dela: não foi de imediato, mas, enfim, aconteceu.  Lá pelo meio das Américas. Aconteceu de vir correndo o primeiro rapaz, em sua direção, rapaz com o Feliz ano novo escrito em letras brancas muito irregulares, sobre o peito moreno. Moreno dos pés aos cabelos, munido daqueles dizeres brancos que adornam a pele magra, quase dando para ver todas as costelas.

Amendoim, paçoquinha, jujubas coloridas, são pequenas embalagens a serem vendidas por dois reais, penduradas às pressas sobre o retrovisor. Ele corre para deixar os saquinhos ao fechar o sinal. Em seguida, corre para recolhê-los. Dizem que não se abre a janela em hora dessas. Mas Rita abre.  Compra jujubas, balas, paçocas, amendoins. De todos os meninos de rostos e peitos pintados que brotam daquela ampla artéria. Como se fossem o mesmo rapaz. Uma infinidade deles se perpetuando pelas Américas.

Ao se dar conta (era  mesmo inevitável), Ritinha abarrota o carro de guloseimas, coisas de adoçar a fome, revertendo uma centena de moedas para os que correm descalços de um lado a outro da via, indo e vindo, a cada intervalo de alertas verdes e vermelhos.

Entretanto, fim ou começo de história, coisa emprestada é para ser devolvida tal qual foi tomada, do mesmo jeito, sem mudanças, a não ser por uma ninharia de quilômetros a mais rodados. E assim foi: o banco do motorista reposicionado, do mesmo modo como os retrovisores. Ritinha aspirou os bancos e lavou tudo, por dentro e por fora. Não sobrou uma jujuba sequer. Encheu o tanque. Verificou a água e calibrou os pneus. Comparando-se o antes e o depois, ninguém notaria a diferença. O carro era praticamente o mesmo.

 

 

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