Enxugar

Éramos os primeiros. Só depois vieram os outros netos, um pouco mais tarde, completando a passagem inevitável dos anos: tão inevitável quanto oculta. Feito nascer de sol e nascer de lua, coisa que a gente não fica reparando todos os dias.

Vovó, na época, envolvia a gente com toalhas bordadas. A minha era enfeitada por flores de miolos amarelos e pétalas vermelhas arredondadas. Lembro também das demais: caracóis miúdos, formando uma fileira delicada por todo o tecido felpudo; passarinhos de adornar com bicos cheios de graça; e um menino nadador, flutuante, calçando pés de pato.

Na maior parte das vezes, ao sair do banho, meus lábios tremiam de frio. Vovó nos abraçava com um sorriso do tamanho dela, já se envolvendo para arrancar algumas gotas e se refrescar através dos nossos rostos molhados. Quando se aproximava assim, de braços abertos e toalha estendida, parecia pessoa já feita para aquecer, como o sol. De novo o sol, o sol, esse que nasce todos os dias e que a gente mal se dá conta.

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