Essa história não cai no ENEM

Foi por um desses acasos, que encontrei um texto, de Dorrit Harazim, sobre a história de milhares de americanos de ascendência japonesa, que foram confinados em campos de concentração, depois denominados campos de internamento, na Costa Oeste dos Estados Unidos, durante a Segunda Guerra Mundial.

Apesar de ser considerada como racista e pouco democrática pelos americanos liberais, a ideia de um confinamento em massa de japoneses, depois do ataque surpresa à Pearl Harbor, emergiu como a solução mais viável para a segurança nacional, naquele momento dramático.

Segundo Harazim, a máxima “um japa” é sempre “um japa”, cunhada pelo general John Dewitt, baseava-se na convicção de que as características genéticas se sobrepunham a qualquer outro fator.

Os seus argumentos de que eles estariam organizados, prontos para entrarem em ação, em solo americano, chegaram aos ouvidos de Roosevelt. “Devemos nos preocupar com os japas até eles serem varridos do mapa”, vociferava o general.

Na realidade, essa proposta militar seria mais um capítulo na história do estranhamento entre americanos e orientais. Na primeira década do século passado, o número de japoneses que chegaram à Califórnia havia saltado de 25 mil para 70 mil, alimentando uma rivalidade com a população local.

Como em todos os rincões do mundo ocidental, que receberam a imigração japonesa, lá, também, os métodos de cultivo agrícola foram transformados. Tais inovações acelerou o clima de desconfiança entre imigrantes e nacionais, a ponto de as autoridades americanas passarem a limitar a entrada de japoneses do sexo masculino. Um decreto de 1913 já havia negado o direito à propriedade de terras nos EUA a imigrantes de origem asiática.

Retrocedendo mais um pouco no relógio da história, encontra-se o Ato de Exclusão de Chineses, de 1882, que vetava, integralmente, a entrada desses orientais em território americano, como a origem de posteriores barreiras migratórias de cidadãos, oriundos dessa parte do mundo.

Mas vida que segue, gerações vão se alternando, descendentes de japoneses, já nascidos nos EUA, vão adotando a nacionalidade americana e o “American way of life”. No entanto, tudo mudaria a partir da manhã do dia 7 de dezembro de 1941, quando a Marinha Imperial Japonesa ataca, de surpresa, a base da frota americana no Pacífico. Foram mortos 2403 militares americanos, e logo no dia seguinte, os EUA declaram guerra ao Japão.

Com o orgulho nacional americano, ainda em ebulição, foi assinado, por Roosevelt, o Decreto nº 9066, contra inimigos estrangeiros e “pessoas de ascendência japonesa”, escancarando a sua natureza racial. A partir de sua promulgação, milhares de famílias americanas, de origem japonesa, tinham de dois dias a duas semanas para abandonarem a suas casas e os seus negócios. Nos postos de cadastramento, sob administração militar, os japoneses recebiam uma identificação que substituía nomes e sobrenomes de família, por números.

A massa nipo-americana foi conduzida, como gado, de forma apressada e improvisada aos Centro de Agrupamentos, localizados em regiões desérticas do país, sem a mínima estrutura de acolhimento. O desnorteio das vítimas desses internamentos foi logo substituído pela disciplina, própria de sua origem, aceitando as condições que lhes foram impostas. Com o passar do tempo, até colaboraram para melhorar aqueles locais de desterro. A humilhação e a indignação, no entanto, permaneceram no interior e na história de cada um.

Reproduzido por Dorrit Harazim, o poema da escritora Mitsuye Yamada, que viveu como interna até a liberação do campo, que ocorreu no fim da Segunda Guerra, expressa assim o seu sentimento:

Espelho, Espelho
As pessoas sempre me perguntam de onde venho,
Diz meu filho.
O problema é que sou americana por dentro e oriental por fora
Não, Kai
Vive para dentro o que está fora
ESSA é a cara da América.

REFERÊNCIA:
HARAZIM, D. Duas visões de uma infâmia. In ZUM # 13, Revista de Fotografia, outubro 2017. Instituto Moreira Salles.

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