Foi fácil

O trabalho exigia: mudavam-se de tempos em tempos. No início, era muito fácil. Uns poucos livros, as roupas, a louça. Depois vieram os bebês. Gêmeos, menina e menino. Ainda assim, era fácil. Os livros, as roupas, a louça e os gêmeos. Em seguida, veio o caçula. Nessa altura, os mais velhos entraram para a escola. Eram só algumas horas. Antes que pudessem ir caminhando, sozinhos, houve nova mudança. Ainda era bem fácil. Os livros, as roupas, a louça, os gêmeos e o caçula. Na nova cidade, nasceu a menina. Os mais velhos, ainda que pequenos, já iam para a escola sozinhos. Os menores brincavam no quintal de casa. De repente, chegou o caminhão para a mudança. Era fácil, ainda. Os livros, as roupas, a louça, os gêmeos, o menino e a menina. Os maiores usavam uniforme escolar, acordavam cedo, a mãe preparava as lancheiras. Fizeram amigos. No dia de irem embora, chovia. Houve birra e tiveram que ser empurrados para dentro do carro, ensopados. Mas, foi… fácil. Os livros, as roupas, a louça, os gêmeos chorosos, o menino e a menina. Novo lar, um poodle, nova escola. As crianças iam de ônibus. O pai trabalhava e a mãe cuidava da cozinha, da limpeza, cuidava do cachorro e do gramado; os deveres de matemática, esses eram com o pai, sempre. Os filhos gostavam da cidade, os amigos frequentavam a casa todos os dias, inclusive, no próprio dia em que partia a mais recente mudança. Não vai, não vou, deixa disso, tremenda gritaria. Embora houvesse escândalo, foi ainda fácil. Os livros, as roupas, a louça, os gêmeos, o menino, a menina e o cão. Mudaram para apartamento. Os mais velhos já não usavam uniformes, então. Na esquina havia cinema. A padaria ficava do outro lado. As manhãs da mãe eram livres, ela aproveitava, corria e nadava no clube, logo ali, no mesmo quarteirão. Foram 2 anos como águas que fluem num rio limpo. Na tarde do vamos ter que ir, ela, a mãe, não parava de lamentar. Houve lágrimas e consolos, mas, mesmo assim, foi, digamos, fácil. Os livros, as roupas, a louça, os gêmeos, o garoto, a garota e o poodle. O novo apartamento ficava em condomínio. Havia coqueiros e praias por todos os lados. Os mais velhos praticavam mergulho, enquanto os outros dividiam seu tempo livre entre o surf e o vôlei de praia. O pai passou a chegar mais cedo para mergulhar naquelas águas calmas e, vez por outra, tocar violão ao luar. Outra mudança? Não foi tão fácil. Os livros, as roupas, a louça, os gêmeos mergulhadores, os mais jovens, o poodle e o luar. No novo, mais novo lar, havia piscina. As boias flutuavam e mudavam de posição de acordo com o vento. Os meninos já eram quase formados. Morreu o poodle. A mãe lia na rede. A filha mais nova, sem jeito, já moça, arrumou namorado. Para cá e para lá, de mãos dadas. Dali em diante, não houve choro. Nem briga. Caminhão agora passava longe, longe.

 

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