Franz Krajberg – um defensor do planeta

Franz Krajberg nasceu em Kozienice, Polônia, em 1921. Viveu os horrores da Segunda Guerra quando lutou como oficial do exército polonês contra a Alemanha nazista. Sua família foi dizimada nos campos de concentração juntamente com milhões de judeus.

Estudou engenharia na Polônia e artes na Academia de Belas Artes de Stuttgart, na Alemanha. Mudou-se para Paris onde morava seu grande amigo Marc Chagall, que o incentivou a vir para o Brasil. Desembarcou em 1948 no Rio de Janeiro, com 27 anos. Não sabia falar a língua, também não conhecia ninguém e estava sem dinheiro. Dormiu ao relento por uma semana na praia do Flamengo.

Fixou-se em São Paulo onde trabalhou como operário no Museu de Arte Moderna, na primeira Bienal de São Paulo, e como auxiliar do pintor Alfredo Volpi.

Foi para o Paraná trabalhar como engenheiro-desenhista numa indústria de papéis ( 1952-1956), emprego que ele abandonou para se isolar nas matas paranaenses, passando, então, a dedicar-se à pintura.Tornou-se um artista expressionista.

Krajberg considerava esse momento como seu segundo nascimento. No Paraná, o artista encontrou desmatamentos e queimadas na floresta. As árvores retorcidas pelo fogo lembravam-lhe os corpos calcinados que tinha visto na guerra e, a partir desse insight, ele afirmava: “ o que faço é denunciar a violência contra a vida. Esta casca de árvore queimada sou eu”, dizia, apontando para uma madeira chamuscada. Arte e natureza nunca mais se desgarraram do artista.

Morava num sítio em Nova Viçosa, no extremo sul da Bahia. Lá, Krajberg se perdia e se achava. Ele encontrava a beleza num tronco retorcido e enrugado, em uma folha caída, estando sempre acompanhado de uma máquina fotográfica que clicava muito, não deixando escapar nenhum detalhe.

O artista se inspirou na natureza e sua obra foi um protesto contra a devastação do planeta.
Krajberg acordava às cinco da manhã e iniciava sua caminhada atrás de matéria prima, como cipós, raízes, cascas, galhos e troncos de árvores que eram empilhados, todos machucados e recolhidos após queimadas e desmatamentos das florestas do Brasil. O artista, com seus 12 ajudantes, selecionava a madeira, que era lixada e preparada para formar enormes árvores ressuscitadas. Era como se suas esculturas vivessem.

O artista preferia as formas irregulares, orgânicas e, como resultado, criava peças que tinham movimento como se quisessem chamar a atenção. “Minha vida é mostrar minha indignação contra a violência e o barbarismo que o homem pratica”, declarava o artista. As esculturas recebiam cores vermelhas e pretas, pois eram os vestígios das queimadas, o fogo e a morte. Ele as chamava de “Meus Gritos”.

Krajberg não costumava modificar a sua rotina. Tinha passos fortes, pele queimada pelo sol, gestos ágeis e muita lucidez. Ele quase sempre se recolhia às 18h, quando fazia uma pausa para descanso.
Em 1957 conquistou o prêmio de melhor pintor na Bienal de São Paulo, sendo também premiado na Bienal de Veneza de 1964. O Museu de Arte Contemporânea de Niterói – MAC, em 2011, apresentou uma retrospectiva dos seus trabalhos

São muitas as suas premiações, mas seu principal objetivo era aproximar-se ao máximo da natureza: “A minha preocupação é penetrar mais na natureza. Há artistas que se aproximam da máquina; eu quero dominar a natureza, criar com ela, assim como outros estão querendo criar com a mecânica. Não procuro a paisagem, mas o material. Não copio a natureza”.

Franz Krajberg faleceu no dia 15 de novembro de 2017, aos 96 anos, no Hospital Samaritano do Rio de Janeiro, devido a complicações provocadas por uma pneumonia. Uma perda irreparável para o mundo artístico.

Seu corpo foi cremado e suas cinzas serão levadas para seu sítio em Nova Viçosa, Bahia, como era seu desejo.

Krajberg não tinha família nem herdeiros e estava preparando um museu com suas obras em seu sítio. Um presente para o mundo.

Uma de suas frases inesquecíveis:
“Não me fale em artista super-homem. A única coisa que quero defender até a morte é a vida”.

 

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