História do pequeno Uziel

Uziel nasceu em 1942, numa casa judia na cidade de Mukachevo, que, na época, pertencia à Hungria. Era o filho único de Edita e Abraham Spiegel, que mesmo sem serem muito religiosos, tinham uma posição proeminente na Kehilá do pequeno povoado, que era formado por uma maioria judaica.

Naquele ano, os horrores do nazismo ainda não tinham atingido aquela região. O cotidiano das famílias só era abalado por notícias, que vinham do resto da Europa, sobre a Segunda Guerra Mundial, que imaginavam nunca chegar lá. Os negócios estavam mais difíceis, mas a vida cultural e social judaica permanecia em plena efervescência.

Mas em 1944, já quando o exército russo estava muito próximo de conquistar a Alemanha, essa população de  Mukachevo, de um dia para outro, recebeu a ordem de deportação para os campos de concentração e  de extermínio.

Ainda não imaginando o destino que os aguardava, o casal Spiegel, assim como todos os seus amigos, juntou os seus pertences, principalmente os que Uziel precisaria em viagem. Logo em seguida, apresentaram-se para as autoridades. Foram transportados, por vários dias e noites, espremidos naqueles vagões de carregar gado, só preocupados em proteger o pequeno filho e a idosa avó, que teve que seguir a família.

Quando chegaram a Auschwitz, em meio a latidos de cães, gritos incompreensíveis dos guardas SS, os passageiros, daquele trem da agonia, foram empurrados para duas filas, que se formaram na entrada do Campo de Concentração.

Abraçada a Uziel, que nem chorava, talvez por desidratação, com a força que lhe sobrava, Edita percebeu que os adultos como ela e o marido estavam sendo recebidos com violência, e que as crianças e os velhos, na sua percepção, teriam mais condições de sobreviverem. Trocou um olhar com o marido e resolveu deixar a criança no colo da avó.

Naquela escolha eles selaram o destino da família. Pouco depois, a mãe de Edita e o neto entraram abraçados na câmara de gás. Morreram juntos como milhões de outros judeus.

O casal Spiegel depois de passar por vários campos de trabalhos forçados e sobreviverem à Marcha da Morte, se reuniram no final da guerra. Procuraram em vão pelo filho e a avó. Resolveram, então, emigrar para os Estados Unidos, com o auxílio dos organismos internacionais do pós-guerra.

Na década de 70, os Spiegel, que foram bem sucedidos na terra que os acolheu, formando uma nova família, em uma de suas vindas a Jerusalém, solicitaram ao Yad Vashem, a autorização para  construírem um monumento, em honra do pequeno Uziel, cujo nome, em hebraico, significa força de Deus.

A resposta dos dirigentes do Museu veio em forma de proposta. Em vez de homenagearem só o seu filho, que o casal patrocinasse a construção de um memorial para todas as crianças, que morreram no Holocausto. Foram um milhão e meio de vítimas, entre os quais, meninas e meninos judeus, na sua esmagadora maioria, centenas de ciganos e crianças alemães, que foram sacrificadas por apresentarem alguma deformidade física ou mental.

E assim foi feito. Na entrada do que parece ser uma caverna de pedras de Jerusalém, há o rostinho de Uziel esculpido. Entrando no memorial, numa escuridão total, brilham milhares de velas, refletindo rostos infantis. Ao mesmo tempo, ouve-se uma voz feminina falando, em hebraico, idish e inglês, o nome, a idade e o lugar de origem de cada criança, que teve o mesmo destino de Uziel.

Como disse Avner Shalev, vidas comuns, mas efervescentes, que viveram para ter um fim brusco, catastrófico e impensável…

Um comentário

  1. Sylvia
    Sylvia 19 de maio de 2017 at 19:22 |

    Muito tocante.
    Que bom poder saber destes ocorridos em familias judaicas que se despedaçaram e ainda tiveram coragem e amor para continuar e lembrando os que se foram.

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