Prêmio Nobel e a tradição de compartilhar o conhecimento

Michael Robash

Com a recente premiação do Nobel para Michael Rosbash e Rainer Weiss, medicina e física, respectivamente, esses dois judeus, filhos de sobreviventes do Holocausto, nos levam a refletir quantos outros potenciais ganhadores não terão desaparecido em consequência do Holocausto? Quantas famílias geradoras de mais vencedores jamais serão constituídas?

Rainner Weiss

São respostas que nunca teremos, porém, apesar da população judaica no mundo ser uma pequena fração, suas supremas realizações são magníficas e, muitas, transformadoras da humanidade.

O Nobel é, sem dúvida, o prêmio mais cobiçado, entre os nomes mais importantes do mundo: Albert Einstein, Madre Teresa e o Dalai Lama, só para citar alguns. Premia as áreas da Paz, Literatura, Química, Medicina, Física e, desde 1969, Economia.

O Prêmio Nobel foi criado pelo filantropo Alfred Nobel, nascido em 1833, em Estocolmo, Suécia, que tornou-se milionário por causa de suas numerosas descobertas na área de explosivos, em especial a dinamite. Idealista, Nobel era consciente dos perigos que envolviam o uso indevido de sua invenção, por isso, sempre apoiou os movimentos em prol da paz.

Dono de um gigantesco império industrial, Nobel deixou ao falecer em 1896, uma grande fortuna destinada à criação de uma fundação que deveria financiar, anualmente, cinco grandes prêmios internacionais. Dentre esses prêmios, quatro deveriam destinar-se àqueles que se destacassem em suas descobertas em Física, Química, Medicina e Literatura. Seu testamento especificava também, um prêmio para quem mais se empenhasse em prol da paz e da amizade entre as nações. Em 1969, foi acrescentado mais um prêmio, para as Ciências Econômicas.

Uma rápida análise de algumas personalidades agraciadas com o Prêmio Nobel desde sua criação, em 1901, até hoje revela uma destacada participação judaica. Entre as personalidades, 22% judeus; e a grande maioria deles, atua nas áreas científicas.

Ada Yonath, prêmo inédito do  Nobel de Quimica

Não há dúvidas, que uma das razões para essa significativa participação judaica é a importância que os judeus sempre atribuíram ao estudo e à erudição. O nível de reflexão e análise necessário para estudar o Talmud, que, em hebraico, significa literalmente “estudo” ou “aprendizado”, acabou afiando a mente judaica. Gerações após gerações, inteiramente, dedicadas ao estudo dos textos judaicos resultaram em incontáveis êxitos nos estudos laicos, pois é preciso uma mente inquisitiva para fazer descobertas e ter sucesso em novas áreas do conhecimento.

Este é, em parte, o motivo pelo qual os cientistas judeus são tão atraídos pelas ciências exatas, a área do conhecimento humano que Alfred Nobel tanto admirava. Albert Einstein, ganhador do Nobel de Física de 1922, é considerado o sucessor de Newton, Galileu e Copérnico. Ao descobrir a Teoria da Relatividade, Einstein revolucionou a Física do século 20, assim como toda a ciência moderna. Na época, na Alemanha, sua descoberta foi taxada de “Física judaica” e ele, assim como uma geração inteira de cientistas judeus alemães de seu tempo, tiveram que deixar o país.

Menachem Begin (à direita) no tratado de Oslo

Em 1978, Menachem Begin, então primeiro ministro israelense, e Anuar El Sadat, presidente egípcio, receberam o prêmio visando incentivá-los a resolver o conflito egípcio-israelense, iniciado em 1948, logo após a criação do Estado de Israel. Em 1994, Yasser Arafat, então líder da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), Shimon Peres, que ocupava o cargo de ministro das Relações Exteriores de Israel, e Yitzhak Rabin, primeiro-ministro, receberam o prêmio em conjunto apesar dos desacordos dentro do comitê de decisão. Um dos membros do comitê preferiu se demitir para não apoiar a escolha de Arafat, a quem considerava terrorista. Nota-se, claramente, nessa indicação o estímulo à paz, já que o prêmio foi atribuído logo após a assinatura do acordo de paz entre Israel e os palestinos, exortando ambos à busca por uma paz definitiva. O tratado, assinado em 1993, tornou-se conhecido como Acordos de Oslo.

Outro objetivo desse prêmio é o reconhecimento de certos valores universais, como a liberdade e a defesa dos direitos do homem, proclamados pelos grandes humanistas. A escolha de Elie Wiesel para o Prêmio Nobel da Paz, em 1986, ilustra de maneira significativa o conceito. Escritor e jornalista, sobrevivente do campo de concentração de Buchenwald – libertado em 1945, conta em seu primeiro livro, “A noite”, sua experiência nos campos de concentração nazistas. Desde então, não parou de lembrar ao mundo as atrocidades cometidas durante as guerras e promoveu uma luta constante contra as torturas e outros atentados à integridade física ou moral do ser humano. Junto com Lech Walesa, proclamou em Auschswitz o direito das pessoas a não sofrer. Foi presidente do “USA Holocaust Memorial Council”. O prêmio que lhe foi outorgado em 1986 transformou-o, de certa forma, em memória e consciência das nações, consagrando toda ação humanista.

Entre os premiados em Literatura, destaca-se o israelense Shmuel Agnon, em 1966, por sua arte de narração. Em suas obras, o escritor conta a vida do povo judeu durante a emigração para a então Palestina, área sob mandato britânico, após a Segunda Guerra Mundial. O filósofo Henri Bergson e a poeta alemã Nelly Sachs também foram premiados. Através de seus escritos, Sachs tornou-se porta-voz dos judeus, que sobreviveram aos campos da morte e foi uma das raras mulheres laureadas.

Nas áreas de literatura e paz o número de judeus vencedores do Nobel é proporcionalmente elevado, com nomes como Saul Bellow, Isaac Bashevis Singer, Nadine Gordimer, entre outros.

Milton Friedman

Na área de economia, instituída apenas em 1969, a percentagem de judeus que receberam o prêmio chega a mais de 40% do total, entre eles o renomado Milton Friedman.

Muitos sobreviventes do Holocausto costumam dizer, que a única coisa que ninguém pôde tirar-lhes na guerra foi sua educação e seu conhecimento. O prêmio Nobel de Medicina de 1958, Joshua Lederberg, declarou que se sentiu mais atraído pela ciência da mesma forma que outros sentem mais identificação com a religião. Claude Cohen-Tannoudji, premiado em 1997 pelo desenvolvimento de métodos de apreensão de átomos por laser, manifestou desde muito cedo uma grande curiosidade intelectual e seu percurso se explica em um princípio da tradição judaica: aprender e compartilhar seus conhecimentos.

 

Comente