Loteria

Para a fila da casa lotérica ela não iria de qualquer jeito, isso não, porque sorte também se induz nos anéis bem apertados e no jeito de segurar o dinheiro. Dona Ana, naquela manhã de probabilidades, firmou bem os cadarços do tênis e ajeitou os cachos alourados, segura de que o vento não despentearia os números no seu pensamento.

Seria uma manhã de espera, ela de pé, confirmando a idade nas pernas e na lombar. Mas dor não quer dizer muito. Donana cutucaria a pessoa da frente e se queixaria, de leve, só de leve, porque puxar assunto cura uns sofrimentos bobos de nada. Perguntaria para aquela pessoa desconhecida qual seria o seu sonho. E, não satisfeita com uma única resposta, cutucaria também a pessoa mais adiante com questionamento igual, até que a fila imensa se tornasse um desfilar de desejos e vontades, um tumulto de ilusões que cabem tanto às loterias.

Não tardaria.

Dona Ana, já centro do falatório, gesticularia e colocaria a mão na cintura para assegurar o rebolado e garantir uma graça só dela. Avaliaria uma a uma das mazelas e ambições alheias e perceberia quão sortuda e rica é. Pessoa miúda e atarracada, tendo a sorte socada, toda apertada, cabendo direitinho em cada parte dela. Para que mais?

Depois de armada a confusão, se valendo do alarido, sairia de fininho, entregando a esperança de bandeja para os demais, sorte, pura sorte, ela abrindo mão das coisas que o dinheiro é capaz de comprar.

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