Marchinha

No dia 28 de outubro de 2016 aconteceu uma grande ressaca na orla do Leblon. Fomos até a praia. Talvez quiséssemos assistir a um espetáculo, tão somente o espetáculo das coisas irrefreáveis da natureza mimada, cheia de vontades. Sentamos. Tomamos água de coco.

O pai lembrava da antiga marchinha: Óh, jardineira, por que estás tão triste? Havia cadeiras quebradas nos quiosques. A areia cobrira totalmente uma das pistas, tendo o mar arrastado seu fôlego para dentro da cidade. O pai cantarolava, com a voz rouca e embargada: mas o que foi que te aconteceu?

Pausava e respirava entre uma crise de tosse e outra. Eram crises recentes, uma novidade, acessos que iam e vinham, a calmaria, o rasgar do peito. A calmaria. O rasgar do peito.

A essa altura reparamos na calçada fragmentada. Rachaduras no asfalto. Mas não seria o asfalto resistente, não seríamos à prova da natureza? O pai continuava: foi a Camélia que caiu do galho. Se ajeitava na cadeira, estremecendo a cada explosão de onda gigante, e as ondas eram mesmo gigantes naquela manhã. Foi a Camélia que caiu do galho, deu dois suspiros.

O sal pregava na pele da gente e o pai dizia na sua hora de calmaria que nunca tinha visto ressaca como aquela. Nem eu, pai. Nem eu. Às vezes, as ondas se confundiam com as nuvens e também com as crises do pai, de tão acinzentadas e cúmplices, desses feitos orquestrados pela natureza: nova onda, o mover de uma nuvem, o trepidar do coração, até o afundar do peito.

O pai Marcos em suas iniciais era mesmo pessoa de conter o mar dentro. De fato, a todos nós cabe um mar. E seguia balbuciando. Os lábios avolumando um sorriso até o ápice, para dia desses quebrar na areia.Foi a Camélia que caiu do galho, deu dois suspiros e depois morreu. Óh, jardineira, por que estás tão triste?

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