Margherita Sarfatti: a mãe judia do fascismo

Todo mundo na Itália tinha interesse em esquecer uma outra mulher de Mussolini. Os fascistas por que ela era judia, os seus opositores por que ela era fascista, e a sua própria família por que o seu nome se tornou um fardo histórico constrangedor. Assim se refere Saviona Mane, em um artigo para o jornal Haaretz, sobre essa figura, conhecida, também, como a guia intelectual do Duce.

A dramática história de Margherita Sarfatti começa tranquila, com uma infância feliz, vivida no gueto de Veneza. Nascida em 1880 numa casa de uma família influente de judeus religiosos, foi criada em um ambiente seguro, onde se destacava o amor que a sua avó – Dolcetta Levi Nahmias – dedicava àquela menina, de cabelo vermelho e olhos verdes curiosos.

Com dezoito anos, apesar da oposição de seus pais, ela se casa com um advogado judeu socialista – Cesare Sarfatti -, que era quatorze anos mais velho que ela. Tiveram três filhos: Roberto, Amedeo e Fiametta.

A família resolveu mudar para Milão, já que Veneza parecia acanhada para a ambição do casal.

Margherita iniciou a sua escalada social, em meio à elite intelectual, se tornando uma mulher ativa, em campos, que eram tradicionalmente dominados pelos homens, quais sejam o jornalismo e a arte.

Todas as quartas feiras, ela abria os salões de sua mansão para as celebridades de Milão e de personalidades estrangeiras, ganhando a fama de excelente anfitriã. Linda, inteligente e espirituosa.

A sua casa se tornou o centro da avant-garde artística, ponto de encontro de variadas tendências do futurismo, e mais tarde do movimento Novecento, que surge no bojo do fascismo.

– “Uma espécie de senso agudo de intuição me aproximava de pessoas talentosas”, escreveu Margherite em suas memórias. Entre essas, figuravam Marconi, o Papa Pio XII, Roosevelt, Einstein, Shaw, Israel Zangwill, a quem denominava “Dickens judeu” e até Jabotinsky, o líder revisionista sionista.

O encontro dramático com a história ocorreu em 1912, quando um jovem inexpressivo jornalista chamado Benito Mussolini foi escolhido para editor do jornal “Avanti”, órgão oficial do partido socialista. Nessa mesma publicação, Sarfatti atuava como crítica de arte.

Na época, ele tinha vinte e nove anos, era, assim, três anos mais novo que Margherite. Mussolini era um ardente socialista vindo do interior, um mulherengo carismático, que não conseguia manter os seus ouvintes atentos com os seus discursos.

A exuberante Sarfatti logo percebeu um brilho de fanatismo nos seus olhos e foi imediatamente arrebatada pelo poder que ele projetava.

Na verdade, Sarfatti não desempenhou apenas o papel da “outra” na vida de Mussolini. Ela, além de dividir, por mais de vinte anos, a cama com o Duce, também ajudou a forjar e implementar a ideologia fascista. “A rainha sem coroa do fascismo” contribuiu com apoio intelectual e financeiro para a organização da Marcha de 1922, em Roma, quando Mussolini tomou o poder. Glorificou o amante na biografia que escreveu, que foi traduzida para dezoito idiomas e aproveitada para divulgar a propaganda fascista.

Foi Clara Petacci, que foi assassinada na companhia de Mussolini. Mas dizem os especialistas, que foi Sarfatti quem melhor o conheceu. Melhor até do que a sua esposa oficial, Rachele Guidi.

No dizer de Sullivan, (2014) Mussolini e Sarfatti revelaram um para o outro as suas almas. Ela conhecia as suas fraquezas, as suas debilidades, seu comportamento bruto e sua ignorância sobre temas científicos e, especificamente, sobre a sua sífilis. Ele conhecia a sua ambição e o seu apego à autopromoção.

Mussolini sempre temeu que Sarfatti fosse revelar a vida íntima do casal, mas ele temia mais ainda que ela revelasse outras imperfeições suas, que pudesse destruir a imagem de semideus, que ele foi capaz de transmitir para o povo italiano.

Embora na autobiografia de Sarfatti, denominada “Acqua Passata” (1955) não ficasse claro o seu relacionamento próximo com Mussolini, no texto ela se trai, recontando uma série de casos pessoais e políticos, transcrevendo falas do Duce, mencionando, inclusive ser ele um maníaco sexual e usuário de cocaína.

Nesse livro, já escrito depois da morte de Mussolini, ela o descreve como um estadista brilhante e carismático, mas, também, egocêntrico, que tentava ocultar os seus complexos de inferioridade, pavores e superstições.

Em outra obra, que escreve mais tarde, compilada por Sulivan (2014), denominada “My fault”, Margherite não expressa, em momento algum, qualquer ponta de arrependimento pelo seu relacionamento com Mussolini e como ideóloga do fascismo.

Ela insiste que o fascismo começou como uma boa ideia, que foi distorcida com o tempo. Menciona que até Mussolini ficou irreconhecível. “Depois de menos de uma década no poder, parecia ter se tornado outro homem. Ele começou a negar a liberdade de pensamento e a subjugar os cidadãos de seu país ao interesse do Estado”.

Sarfatti atribui a queda de Mussolini à aliança, que ele estabeleceu com a Alemanha Nazista. Ela sempre se opôs a essa estratégia. Reconhece, por outro lado, que o eixo Roma Berlim não se deu por acaso. Mussolini admitindo, internamente, as suas fragilidades, sentiu-se atraído pela superioridade germânica. Assim, ele sucumbiu à doença do poder, à loucura dos Cesares. No livro “My fault”, ela confessa que acreditava no fascismo e que lutou por isso, em seus primórdios.

“Pior, eu escrevi um livro, lido por muitos, que interpretava os ideais fascistas de modo favorável e proclamei para todo o mundo que Mussolini era um herói de proporções históricas. Esse foi o meu erro… É minha obrigação reconhecer que Mussolini caiu pela sua completa falência moral.

Como a maioria dos italianos, Sarfatti via o Duce com a imagem de um “bom tirano’, confiando sempre na sua redenção. Melhor, talvez, que os líderes eleitos democraticamente.

Em 14 de novembro de 1938, pouco depois que as leis raciais foram aprovadas na Itália, Margherita Sarfatti deixou a sua casa próxima ao Lago Como, entrou no carro e pediu ao seu motorista que a conduzisse até as proximidades da fronteira com a Suiça.

Entre os poucos pertences, a intelectual judia acomodou em duas malas 1272 cartas, que ela havia recebido de Mussolini e que ninguém mais teve notícia. Acompanhada do filho menor, passou por Paris, viveu na Argentina e depois no Uruguai. Voltou a frequentar as rodas intelectuais, agora na América Latina.

Mas, mesmo tendo uma irmã e um cunhado mortos a caminho de Auschwitz, ela nunca fez uma crítica ao antissemitismo dos regimes nazista e fascista. Voltou para a Itália em 1947.Faleceu em 1961, muito longe dos holofotes.

A filha mais velha de Sarfatti, em 1930, se converteu ao cristianismo, seguindo o exemplo de sua mãe. Contudo, optando por permanecer em Roma, teve que contar com a proteção da rede de relacionamentos de Mussolini, para que não fosse perseguida, na Itália antissemita, junto com as suas três crianças.

Em uma carta, já no exílio, dirigida ao amigo Butler, presidente da universidade de Columbia de Nova Iorque, citada por Kunitzky (2016), Sarfatti revela a sua decepção:

“… Sabe o que nos passou? Sou católica igual aos meus dois filhos, ambos casados com católicos e pais de filhos católicos. Mas eu, como o meu esposo, sou descendente de judeus e, em consequência, somos considerados judeus, o pecado mais capital na Itália, de hoje em dia.

Investigou-se a nossa ascendência em tal medida, que a gloriosa morte do meu filho, na guerra e a fé e o trabalho pelo fascismo e pela Itália do meu marido, dos meus filhos e de mim própria, de nada valeram. (Gutman, p. 14).

No dizer de Kunitzky, Margherita Sarfatti tratou de desprender-se de sua judeidade, nos termos que Arendt sustentava de que alguns judeus, mesmo querendo escapar do judaísmo mediante a conversão, enfrentou a realidade de que da judeidade não há escape possível.

Sarfatti reconheceu que pagou um preço alto por uma identidade não desejada. Sofreu, na visão desse autor, uma condenação ontológica, dado que a perseguição antissemita de que foi vítima foi por “ser” judia e não por adotar determinadas posturas. É a diferença essencial entre a perseguição racial e política.

Referências:
Gutman, Daniel. El amor Judio de Mussolini. Margherita Sarfatti, del fascismo al exilio. Lumiere, Buenos Aires, 2006.
Kuznitzky, Adolfo. Cuadernos judaicos, nº33. Diciembre, 2016.
Mane Saviona. Mussolini’s Jewish lover who helped launch fascism. Forward, November 23, 2014.
Mane Saviona. The Jewish mother of fascism. Haaretz, July 6, 2006.
Sarfatti, Margherite. Acqua passata. Bolonha:Capélli, stampa, 1955.
Sarfatti, Margherite. My fault, Mussolini as I knew him. Edited by Brian R. Sulivan, Enigma Books 2014.
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2 Comentários

  1. Henriette M. Krutman
    Henriette M. Krutman 23 de Janeiro de 2018 at 17:26 |

    Que relato incrivel,Sarita! Eu desconhecia por completo a existência de Margherita Sarfatti. Sua vida daria um filme e tanto!

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  2. Eliene
    Eliene 15 de Fevereiro de 2018 at 1:30 |

    Vi há pouco tempo um bom documentário na TV Cultura sobre esta personagem.

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