Maria: “uma gente que ri, quando deve chorar…”


A sua história se parece com a de milhões de Marias, retratadas na cantiga de Milton Nascimento. De família miserável, com dez irmãos, veio sozinha, do interior da Bahia, para o Rio de Janeiro. A vida escolheu para ela a profissão de doméstica.

Semianalfabeta, se apaixonou pelo porteiro do prédio, na Gávea, e ficou logo grávida. Assim que a criança nasceu, foi convidada pelo marido e pai do seu filho, a abandonar o minúsculo quarto que dividiam.

Saiu com o menino no braço e, por sorte, encontrou uma patroa que a acolheu. Por mais sorte ainda, conseguiu escola para o filho, que desde cedo foi se destacando nos estudos. Para não me alongar, esse ponto fora da curva, hoje, cursa o ensino médio numa escola federal. Sua admissão, nesse estabelecimento, passou por uma seleção rigorosa.

Na verdade, a PUC-Rio teve grande participação na vida escolar do menino. Desde os nove anos, enquanto a mãe trabalhava, ele ficava sozinho em casa, ia para a escola municipal e depois para uma atividade de complementação de estudos na universidade católica.

O tempo foi passando e de casa em casa, Maria conseguiu fazer economia e com a ajuda da patroa da vez, conseguiu comprar uma casa numa favelinha no Parque da Gávea, que até há dois anos atrás, era um lugar tranquilo para se viver.

Já proprietária de um imóvel, atraiu um novo marido, que queria muito ser pai. Mesmo ressabiada pela primeira experiência, embarcou na nova aventura e nasceu uma menina. Findo o tempo de licença, pediu demissão na vã esperança de que desta vez seria sustentada. Doce ilusão. Menos de um ano depois, já estava de volta ao emprego antigo, como faxineira. Ainda tentou uma carrocinha de tapioca no ponto final do ônibus, mas foi logo aconselhada pelas autoridades do espaço, a desistir.

Hoje está só com os dois filhos, em sua casa, rodeada por tiroteios, pois a sua favela faz parte do complexo da Rocinha. As suas crianças já foram treinadas para se deitarem no chão, cada vez que a guerra recomeça. De vez em quando, Maria falta ao trabalho, por que as escolas fecham por ordem da prefeitura ou do tráfico.

Apavorada, ela está planejando alugar ou vender a sua propriedade já desvalorizada, construída com tanto sacrifício, e voltar para o interior da Bahia.

Como tão bem sintetiza Milton Nascimento:

– “Maria é uma gente que não vive, apenas aguenta…E possui a estranha mania de ter fé na vida…”

2 Comentários

  1. Samuel Pustilnic
    Samuel Pustilnic 31 de outubro de 2017 at 19:00 |

    Lamentavelmente é a história do Brasil, em particular do Rio de Janeiro. País e Estado assaltados por políticos corruptos que compram votos dessa e outras Marias. Este povo, sofrido, é usado e os administradores esvaziam o cofre não dando segurança, saúde nem educação.

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  2. Diva Masur
    Diva Masur 1 de novembro de 2017 at 2:20 |

    Gosto de ler esse jornal,sempre com informações de Israel e de judaísmo,alem fatos do nosso dia a dia.
    Pertenço a comunidade judaica do Recife.

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