Mazal Tov!

Eram 45 meninas. Pareciam todas iguais. Lindas, louras e morenas, cabelos longos, vestidos brancos rodados, com ou sem brilho, todos bem delicados. Afinal, aquele era o dia do Bat Mitzvá coletivo delas. Todas alunas do Liessin, uma escola judaica, que escolheu um clube judaico – Hebraica – para celebrar essa data, tão significativa para a tradição das famílias judias.

A cerimônia se iniciou com a prece do Shmá Israel, recitada por elas, continuou com o Shehianu, dando graças por terem chegado a esse momento, passou pelo acendimento das velas do Shabat, do lado de suas mães, e se encerrou com a benção dos pais, sob a proteção do Talit.  Mais judaico impossível.

A própria ideia da realização coletiva, inclusiva em sua origem, quando as diferenças desaparecem, proporcionando a todas as alunas esse momento de alegria e realização, já se constitui numa lição de solidariedade e amor ao próximo, próprios das nossas raízes, mas um pouco esquecidos hoje em dia.

Tudo foi minuciosamente calculado, para que todas participassem com o mesmo destaque. Sob o comando da incansável e brilhante Morá Anita, patrimônio precioso do ensino judaico de nossa cidade, as alunas se revezavam, entusiasmadas, entre textos e músicas, que falavam de suas trajetórias na família, na escola e na comunidade.

Pedagógica, também, foi a participação dos meninos na cerimônia. As homenagens, que eles prestaram às amigas, se constituíram numa forma de valorização da figura feminina, tão importante para o fortalecimento do respeito ao outro, como para a prevenção da violência doméstica. Além disso, imagino os corações das meninas aos pulos, por estarem recebendo flores, por um acaso, logo de seus preferidos.

Aquela noite foi a culminância de todo um processo educacional, que trabalha os nossos valores judaicos, inseridos na cultura e na sociedade contemporânea. É assim que percebo a proposta da escola judaica, que segue o “modismo”, que se iniciou logo depois da dispersão do nosso povo, nos anos 70 de nossa era, tanto em Sefarad, como na Europa Oriental. E que deu tão certo.

Desde o início, o judaísmo baseou sua sobrevivência na educação. Não educação no sentido estreito e formal de aquisição de conhecimento, porém algo mais vasto. A cultura de estudo e debate do judaísmo, sua absorção em textos, comentários, sua devoção à instrução e ao aprendizado a longo prazo. Se há um motivo condutor, um tema dominante conectando as várias eras do povo de Israel, é a entronização do estudo como valor judaico soberano.

O professor Daniel Elazar, em sua obra People and polity, chega a afirmar que a história dos judeus tem sido uma história de comunidades construídas ao redor de escolas. E a história da comunidade do Rio e a da minha família passa pela história do Liessin.

Mais um capítulo foi escrito naquela noite na Hebraica. O Bat Mitzvá da nossa neta, que tem nome de juíza, mas quer ser arquiteta, foi comemorado como sonhamos, seguindo a tradição judaica, no que ela tem de mais autêntica.

Mazal Tov para o Liessin! Mazal tov para todas as quarenta e cinco meninas! Mazal tov para a comunidade do Rio!

3 Comentários

  1. Alice Burla
    Alice Burla 26 de junho de 2017 at 22:12 |

    Lindo Sarita! Sempre passando sua emoção!

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  2. Rafael Bronz
    Rafael Bronz 27 de junho de 2017 at 10:58 |

    Parabéns pelo texto. Conseguiu retratar perfeito o objetivo desse nosso trabalho.

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  3. Suzana Grinspan
    Suzana Grinspan 27 de junho de 2017 at 13:14 |

    EMOCIONANTE!!!!!!PARABENS!!!!!SEMPRE COM NACHES!!!!!!

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