Melancias e energúmenos

-Eu elejo quem eu quiser, elejo até uma melancia! Disparou o político ao microfone.

Assim é no Brasil. Nossos políticos vão para a tribuna e bradam o que bem entendem, fascinados com a própria voz, como se não houvesse população assistindo aos seus gestos estúpidos mostrados em rede nacional. E mandam recados aos desafetos, cobram seus ‘direitos’ de base de apoio, reclamam de retaliações ‘desagradáveis’ e ameaçam retorno, o troco pelo desgosto.  Uma vergonha disseminada país afora.

Se tem de dar errado, não vai dar certo nunca. Pois o presidente Temer escalou dois amigos para serem ministros do TSE e montarem o julgamento da chapa Dilma-Temer do jeitinho que Gilmar Mendes decidiu: não usando as provas que exigiu fossem buscadas anteriormente. Um deles, Admar Gonzaga, acaba de deixar a esposa com olho roxo, o que a levou a registrar queixa do marido numa delegacia em Brasília. Os vizinhos ouviram gritos do casal, e o ministro agora vai se entender com a lei Maria da Penha. Na verdade, não vai mais: a agredida já registrou uma retratação, com o que deve ser arquivado o caso, sem desmentir, porém, a agressão. Coisa de macho! Coaduna com a postura geral do TSE de nossos dias. Triste episódio para tristes momentos.

Quando Dilma inventou o FGTS eu juro que senti cheiro de golpe no ar. O que se pagava de INSS quase triplicou com os novos cálculos feitos. E eu pensei na hora: duvido que algum trabalhador doméstico veja a cor desse dinheiro. É mais um truque para encher bolsos gananciosos ou cofres pilhados. Não deu outra. O ministro da Fazenda surge com a novidade, um truque malabarista para não pagar aos trabalhadores um dinheiro que foi ‘criado’ para eles. A única coisa certa de todo esse engodo é que muitas domésticas perderam o emprego, ou passaram a diaristas, o que evita a carteira assinada e o assalto de encargos que cabem ao empregador. Mais um golpe baixo de governos incompetentes e ladrões.

Nosso prefeito, Marcelo Crivella, diz-se um homem reto. Pode ser, até agora, pelo menos – embora seja sobrinho do dono da Universal, que reza em torno de dízimos mis e depois passeia de lancha por mares mais calmos.  Mas administrador a gente já percebeu que o Crivella não é. Muito menos de uma cidade como o Rio de Janeiro, que levou um século, lá atrás, para trazer água às casas, trabalho ainda incompleto no século XXI – o que dizer de dar saneamento básico e manutenção de galerias pluviais.

Chove chuva, chove sem parar, mas não dá voto ajeitar bueiros e então fica tudo como dantes. A cidade segue abandonada. Cortar verbas é o que mais se escuta, mas não as vemos sendo usadas em nenhum outro lugar. Então, a saída é fazer propaganda do próprio governo, dar alguma coisinha para alegria mínima do povão e está resolvido o problema – assim pensam nossos políticos. Como se a melhor propaganda de um governo não fosse uma boa gestão. Acho que desconhecem a palavra.

Inaugurar posto de Saúde Animal? Com hospitais em petição de miséria e escolas sem merenda e aulas decentes, ele nos vem com um posto de saúde animal?

Nada contra animais, mas pessoas em primeiro lugar. A cena toda faz lembrar o presidente João Figueiredo, que dizia preferir o cheiro dos cavalos ao da população. Talvez pela mesma razão o carro do prefeito bata em outro e sequer se incomode de ver se causou danos a alguém ou ao veículo do cidadão abalroado, que supostamente paga impostos e está sob seus ‘cuidados’ de prefeito.

Pombas! Por que será que o Rio de Janeiro nunca tem boas opções de políticos? Aliás, por que Juscelino Kubitschek transferiu a capital do Rio para Brasília, esvaziando a cidade de seu poder cultural? Mais dois teatros fechando? Quais ficarão de pé? E por que Fernando Henrique Cardoso sucumbiu à vaidade e criou, sabe-se como, a reeleição? Por que Lula traiu seus eleitores e institucionalizou a corrupção? Por que Dilma, a primeira mulher presidente do Brasil, teve de mostrar tanta incompetência, envergonhando o gênero e o país? Por que Temer se amesquinhou tanto? Por que temos melancias e energúmenos em nossos cargos de poder? Se viraram melancias e energúmenos nosso Executivo, Legislativo e Judiciário, que se pode esperar para o futuro? Que perspectivas para um país que se torna alvo de gozação mundial? Tantas perguntas sem respostas. Melhor ir ao cinema.

‘Frantz’ é um filme instigante. Além de mostrar o vazio e absurdo que são as guerras – sempre capitaneadas por homens (melancias energúmenos?), mas atingindo toda a família – e como a humanidade se apequena, como se perde em meio a ódios sem motivação clara. A não ser que expliquemos a raça humana como feita de melancias e energúmenos.

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