Menashe


Você conhece um “shlimazl”? Aquela pessoa que insiste em não ter sorte na vida. Ela faz tudo direitinho, mas de repente, não mais do que de repente, as coisas desandam, por mais que se esforce.

E que os outros torçam ao seu favor.

Menashe era um “shlimazl”. Mal amado, desleixado em sua aparência, desprezado pela família, explorado pelo patrão fazia parte de uma comunidade ultra ortodoxa de algum bairro de uma cidade americana. Com sua barba malcuidada, gordo, era caixa de um supermercado, o que não se adequava muito ao perfil de um “chassid”.

Mas, sempre solícito, era capaz de sair de seu lugar para trocar uma alface já murcha, que tinha sido escolhida por uma cliente mais distraída.

A sua grande paixão era o filho. Um menino de mais ou menos onze anos, com quem voltava a ser criança. Se é que, na sua vida, algum dia, ele teve a oportunidade de brincar com o seu pai. Criava o menino sozinho, pois a sua esposa havia falecido há alguns meses, na tentativa de uma nova gravidez.

Muito sincero, Menashe confessa que não sente saudades de seu tempo de casado. A noiva foi escolhida por seu pai, contra a sua vontade. Nunca foi feliz com ela. Era até acusado pelo cunhado de não a tratar bem, durante o período em que ela adoeceu.

A comunidade religiosa não aceitava que ele ficasse com a guarda da criança, enquanto não arrumasse uma nova mulher. A “shadchan” ou “matchmaker” ou casamenteira ficou incumbida de arrumar a nova esposa. Mas, na verdade, ele ainda não estava a fim. O diálogo ácido e ao mesmo tempo cômico, que ele trava com uma candidata, numa mesa do restaurante, revela a sua má vontade.

O que lhe dava prazer era a reunião com muita música e bebida, em torno da mesa da casa do “Ruf”. Era assim que todos se referiam ao rabino do bairro. Me lembrei dos meus tempos de menina, quando lá em casa, todos chamavam, com muito respeito, o rabino de “Ruf”.

E o filme, falado em idish, que fez parte do Festival de Cinema do Rio, vai reforçando os laços entre pai e filho, retratando personagens, às vezes, de forma estereotipada, que fazem parte do modo de ser de um grupo ortodoxo. Por mais homogêneo, determinista e fechado que aparenta ser esse universo, o roteiro nos induz a perceber que há espaço para sentimentos individuais, tanto de amor, como de ódio. Indiferença nunca. O que gera ações inusitadas.

Paro por aqui, deixando, também, um espaço de curiosidade para quem conseguir ver o filme em algum circuito alternativo. Não vou dar uma de “spoiler”. Vale a pena conhecer esse “Menashe”!

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