Negação

Bem, a Polônia quer reescrever a História, ainda que na areia. Péssima ideia. Mais certo seria mudar o presente (o antissemitismo ainda é forte no país), aprimorar o futuro (educar seu povo e respeitar o diferente), e assim redimir o passado (de colaboração nazista). A pecha dos judeus é pesada, injusta, e já se arrasta há quase 2000 anos. A Segunda Grande Guerra, que assistiu à carnificina, ao morticínio, ao Holocausto do povo judeu, pode ser acompanhada de perto por muitos livros. E pelos sobreviventes, que estão aí para lembrá-la e contá-la.

De fato, e já o mencionei anteriormente, o ATLAS DO HOLOCAUSTO, de Martin Gilbert, contém uma vastíssima bibliografia, mapas e depoimentos sobre o Holocausto. Contra a História escrita e testemunhada, não há como uma mera vontade política simplesmente apagar a verdade.

Já na página 21 do Atlas, lê-se que ‘ FOI NA POLÔNIA QUE A VIOLÊNCIA CONTRA OS JUDEUS SE ESPALHOU COM MAIS FORÇA, ENTRE 1935 E 1937. EM CADA CIDADE E VILAREJO, JUDEUS ERAM ATACADOS NAS RUAS, CASAS E LOJAS JUDIAS ERAM QUEBRADAS E SAQUEADAS. UM JORNAL POLONÊS DE 1936 AFIRMAVA QUE ‘ERA NECESSÁRIO COLOCAR CRIANÇAS JUDIAS EM ESCOLAS SEPARADAS DAS NOSSAS CRIANÇAS (CATÓLICAS), A FIM DE QUE ESTAS (AS NOSSAS) NÃO SEJAM INFECTADAS COM A BAIXA MORALIDADE JUDAICA’.

No mesmo ano, o CARDEAL HLOND DECLAROU numa carta pública: “é certo que OS JUDEUS ESTÃO COMETENDO FRAUDES, PRATICANDO A USURA, E USANDO ESCRAVOS BRANCOS. É VERDADE QUE, NAS ESCOLAS, A INFLUÊNCIA DOS JOVENS JUDEUS SOBRE OS CATÓLICOS É GERALMENTE UM MAL, DO PONTO DE VISTA ÉTICO E RELIGIOSO. Mas, sejamos justos. Nem todo judeu é assim. Na verdade, é bom fazer negócios com seus semelhantes e evitar lojas e estabelecimentos de judeus, mas não é admissível demoli-los, quebrar suas janelas, incendiar suas casas’…

Bismarck, no século XIX, também viu alemães hostilizarem judeus, mas nada fez para impedi-los. Preferiu olhar para o outro lado.

Uma maneira de incitar a violência, dizendo o contrário, conhecida até hoje, em todo lugar.

Em 1937, apenas em agosto, houve 350 ataques contra judeus na Polônia, sendo que em Katowice, bombas foram jogadas em lojas judaicas. A situação levou dezenas de milhares de judeus a emigrarem.

Judeus viviam na Polônia há 800 anos.

Na Dinamarca, ao contrário, os judeus não foram molestados, simplesmente porque as autoridades do país não se renderam aos nazistas. Na Noruega, tampouco. Sim, foram proibidos de exercer funções acadêmicas e outras similares, mas não houve assassinatos, tortura, trabalho forçado e expulsão, como na Polônia ocupada. Os judeus da Bulgária também foram salvos, graças à coragem do povo búlgaro.

É História. Está registrada. Como já disse, os alemães mantinham organizada a lista de judeus, que caçavam desde os locais mais longínquos, reunindo-os em vilarejos, depois em pequenas cidades, até chegarem ao gueto ou campo de concentração de destino, e daí para a morte. Anotaram com detalhes cada cidade considerada ‘livre’ de judeus.

A Polônia não pode – ninguém pode – apagar a História. E a História nos conta, em muitos livros sérios – no Atlas do Holocausto pode ser lido e visto em fotos e mapas, acompanhando toda a caça aos judeus em cada país, no caso, na Polônia; assim, lemos à página 241 que “entre ‘1944 e 1948, uns 200.000 sobreviventes deixaram a Europa para a Palestina, então sob mandato britânico. Por mais incrível que pareça, APÓS DOIS ANOS DA RENDIÇÃO DOS ALEMÃES, A MATANÇA DE JUDEUS NA POLÔNIA CONTINUOU. E foi a forte violência antissemita que desencadeou a fuga dos judeus para a Palestina. De fato, escreve o autor, a maioria dos judeus poloneses vistos nas fotos do Atlas, salvaram-se por encontrar refúgio, em 1939 e 1940, na Ásia Soviética Central.

É verdade, em vários países – inclusive na Polônia, houve não judeus que se arriscaram para salvar judeus. Mas exceções não servem senão para confirmar a regra do antissemitismo que existe entre os poloneses. Até hoje tido como 6.000.000, o número (3.000.000 de judeus foram mortos só na Polônia) pode não ser o total, pois ainda se descobrem túmulos nos quais uma estrela de David indica a religião judaica dos que ali jazem. Nenhum nome, mais nada. Como a lápide vista na página 245 do livro que ora tenho às mãos, onde se lê estarem ali enterrados 11 desconhecidos, mortos na Áustria durante a guerra.

Então, o Primeiro-Ministro polonês não tem nenhuma razão. Em vez de tentar negar um fato triste da história polonesa, impossível de ser apagado com uma canetada, devia munir-se de todos os esforços e vontade política para aprimorar o presente de seu povo através de sólida Educação e preparar o caminho para um futuro de congraçamento e paz entre os povos. Negar, negar não dá. Negar, nunca. Não se sustenta. Não passará.

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