# NÓS LEMBRAMOS

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# NÓS LEMBRAMOS

Para celebrar o Dia Internacional em Homenagem às Vítimas do Holocausto, traduzi parte de um texto de Elie Wiesel, uma voz contundente que silenciou no ano passado, depois de cumprir a missão de despertar a consciência do mundo, em relação ao genocídio, cometido pelos nazistas contra os judeus na Europa.

Na verdade, Wiesel escreve uma carta aberta a D’s, tentando compreender os seus desígnios, numa época tão terrível para o povo, que se considera o Seu escolhido. Diz o autor:

– Mestre do Universo, vamos tentar uma reconciliação. Já está na hora. Por quanto tempo  mais vamos continuar zangados?

Já se passaram mais de cinquenta anos que o pesadelo acabou. Muitas coisas boas e não tão boas foram acontecendo para os sobreviventes. Eles aprenderam como reconstruir a partir de ruínas. A vida em família foi recriada. Crianças nasceram, amizades foram refeitas. Eles aprenderam a ter fé em seu entorno e até em seus semelhantes. Gratidão substituiu o sentimento de amargura nos seus corações. Ninguém é mais agradecido do que eles. Agradecem a cada um, disposto a escutar as sua histórias e a se aliar à sua cruzada, contra a apatia e o esquecimento. Para eles, cada momento na vida é uma graça.

Mas essas pessoas não perdoam os assassinos e seus cúmplices. Nem deveriam. Nem Você, Criador do Universo. Nem por isso eles encaram o próximo como suspeito.  Eles não esperam se defrontarem com um punhal em cada mão.

Tudo isso significa que as feridas dos sobreviventes foram cicatrizadas? Não, de jeito nenhum. Enquanto uma faísca das chamas de Auschwitz e Treblinka  restarem em suas memórias, a minha vontade de gozar a vida permanecerá incompleta.

E sobre a minha fé em Você, Rei do Universo?

Agora eu reconheço que nunca a perdi, mesmo no tempo mais escuro da minha vida. Eu não sei por que eu continuava sussurrando as preces diárias, as do Shabat e as dos Chaguim. Eu orava junto com o meu pai e em Rosh Hashaná com centenas de prisioneiros do Campo de Concentração. Seria porque as preces me mantinham ligado com o mundo desaparecido da minha infância?

Mas a minha fé não era mais tão pura. Como poderia ser? Ela era composta mais de angústia do que de devoção, mais de perplexidade do que de piedade. Não sei o que me doeu mais, a Sua ausência ou o Seu silêncio?

Onde estava Você, D’s da bondade, em Auschwitz? O que estava se passando no céu, no tribunal celestial, enquanto suas crianças estavam sofrendo humilhação, isolamento e morte, só por que eram judeus.

Essas questões me perseguiram por mais de 50 anos. Você sempre teve vozes para Te defender. Escutei muitas respostas baseadas na religião. D’s é D’s. Ele sabe o que faz. Ninguém tem o direito de questionar Ele e Seus feitos.

Eu rejeitei todas essas respostas. Auschwitz vai ser sempre um ponto de interrogação. Não poderia ter acontecido com D’s ou sem D’s.

Num determinado momento, eu me questionei se não estava sendo injusto com Você. Afinal Auschwitz não caiu do céu. Foi concebido pelos homens, planejado pelos homens e executado pelos homens. E os seus objetivos foram não só nos destruir, mas destruir a Você também. Não deveríamos pensar na Sua dor? Assistindo os Teus filhos sendo maltratados pelas mãos de Teus outros filhos? Você também deve ter sofrido muito.

Apesar de tudo o que ocorreu. Sim, apesar de tudo. Vamos nos reconciliar. Pela criança que fui, é inconcebível eu permanecer afastado de Você por tanto tempo.

Referência:
Elie Wiesel. A pray for the days of awe. The Times. 1997.

Um comentário

  1. Alice
    Alice 24 de janeiro de 2017 at 15:34 |

    Sarita muito feliz por ter escolhido essa carta! Porque nós também fazemos as mesmas perguntas. Porque?

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