Novos dias de Israel

Ir a Israel é sempre uma alegria. Sempre. Desde minha primeira viagem a país, em 1973, acompanho seu eterno desabrochar. O aeroporto mostra hoje uma beleza e tecnologia de Primeiro Mundo. Sou fascinada pelas buganvílias que enfeitam as avenidas, os canteiros em cada cruzamento, as construções que surgem a cada instante, a modernização que se vê por toda parte. Sem desfigurar a arquitetura da cidade. E tudo isso em 69 anos. E apesar das guerras e de líderes que se opões à paz. Dá para imaginar o que pode surgir se houver um entendimento maior na área. Dois Estados, dois povos que façam renascer a Sefarad Medieval, uma Luz neste mundo doente.

Em Israel, crianças de 9, 10 anos vão e voltam da escola sozinhas, atravessando avenidas, algo impensável em nosso Brasil de hoje; alguém lhe empresta um iphone para você se comunicar com um familiar, outra atitude impensável por aqui.

Um fim de semana em Jerusalém é sempre inesquecível, sempre novo e marcado na memória. Restaurantes cheios no shabat, ainda que se deva chegar até eles a pé – não há razão para se preocupar, decerto há algum especial perto de seu hotel. Na praça defronte, antes do entardecer, uma feirinha de artes e jovens tocando um piano instalado na praça. Basta chegar, sentar e tocar. Outros trazem guitarras, flautas e a farra está formada.

O Muro das Lamentações vibra com fiéis. Difícil achar um espaço para tocá-lo e colocar uma prece em alguma brecha das vetustas paredes, mas o judeu é povo paciente, e logo o momento surge. O shuk que acompanha a Via Dolorosa anda animado. Turistas de todas as partes garantem o comércio e o sorriso do entendimento. Amém à paz.

Abu Gosh fica bem perto de Jerusalém. O nome já diz, é árabe, mas ali a confusão se resume em estacionar e encontrar lugar em algum dos muitos restaurantes do lugar, lotados por judeus no almoço de sábado. Muita gente, muita gritaria, mas logo se ajeita uma mesa, junta-se outra, e o grupo de 10 se acomoda para saborear o que há de melhor em comida sefardita, ou árabe, ou que nome se lhe dê. Saem todos felizes e, de novo, ganha a paz.

A mesma alegria encontramos no auditório Recanati, situado no Museu de Arte de Tel-Aviv, onde aconteceu um concerto com a Orquestra de Câmara de Israel, regida pelo maestro Doron Salomon, que contou com músicas de Heitor Villa-Lobos, Daniel Murray e canções populares brasileiras, interpretadas por Chico Pinheiro, um brasileiro paulista bem jovem.

A plateia lotou os quase 500 lugares. Jovens, muitos jovens em jeans, tênis e agasalhos. Pessoas vindas diretamente do trabalho, duas mulheres que faziam sua caminhada diária após o trabalho, passaram pelo museu, se informaram sobre a programação e decidiram comprar ingressos e assistir ao concerto. Cabeças brancas, havia muitas – havia de tudo. Israel era – não sei se ainda retém o título, mas creio que sim – o país com mais orquestras e grupos de música no mundo, levando-se em conta seu tamanho e população. Israel e música se completam em perfeita harmonia.

O museu do Palmach, o museu de Rabin, o museu de arte de Tel- Aviv, a História do povo judeu se amplifica em cada um deles. A gente se pega imaginando a ironia da vida: Sadat saiu do Egito para fazer a paz com Israel, foi visto como traidor por fanáticos árabes e terminou assassinado. Rabin tentou fazer da paz uma realidade, mas teve a vida ceifada por um fanático judeu. Os fanáticos, de ambos os lados, são realmente o empecilho para um futuro de harmonia.

Vinte dias correm, quase voam. De novo as malas, o aeroporto moderno e lotado. A conexão na Itália, outro aeroporto, o Leonardo da Vinci, também lotado, com jeito quase de feira, pessoas de todas as cores e culturas movimentando os caminhos para encontrar o seu portão de embarque – inclusive usando um trem para mudar de terminal, em alguns casos. Uma prova de vida, de economia pulsando, um momento de pausa até chegar ao Brasil e descobrir, com tristeza, que podemos ensinar geografia a nossos jovens através das prisões, hoje famosas entre a população. Em que bairro carioca fica a cadeia de Benfica? Qual o nome inteiro da cadeia que fica no subúrbio de Bangu? Em que estado brasileiro fica a Papuda? E por aí vamos. Infelizmente. Sem falar no Terminal abandonado em nosso aeroporto.

Também nos deparamos com a prisão de Garotinho e de Rosinha, o casal nota 0. Adriana Ancelmo também voltou ao lugar que lhe cabe, outro casal nota 0. Enfim, Gleise Hoffmann e seu marido – mais um que leva nota 0, são indiciados. A gente se pergunta, estarrecida: mas não para nunca? Não. Dinheiro encontrado em carro, perto de milhão, tentativa de subornar os policiais (peguem o dinheiro que lhes oferecemos e sumam), a quadrilha do guardanapo, enfim, completa na cadeia (o bando de Benfica), enquanto houver resquício de podridão, é preciso perseverar e continuar a faxina. Há coisa melhor do que limpar toda a casa e depois sentar e ver tudo em seu devido lugar, o ar perfumado e a sensação gostosa do trabalho feito? Moisés levou 40 anos para atravessar o deserto.

Talvez a Lava-Jato seja o deserto pelo qual devemos passar, a fim de chegar a um país livre dos vícios do passado. Vivemos uma guerra no Rio, num Rio saqueado por políticos do pior calibre. Extenuados, ansiamos por dias com buganvílias e crianças seguras e paz e equilíbrio social. Que a Lava-Jato faça o seu trabalho e o povo alcance a merecida dignidade. Shalom.

 

+++Na próxima semana continuação do texto sobre Martins Pena

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