O Encontro

 

Uma vela, acesa a quatro mãos, marcou o primeiro encontro. Era uma homenagem às vítimas do Holocausto. Uma já beirando os cem anos, a outra ainda em plena atividade com filhos adolescentes.

No rápido diálogo estabelecido, a descoberta de que moravam na mesma rua. Daí, para o oferecimento de uma carona e a promessa de um novo encontro foi muito rápido.

Promessa feita, promessa cumprida. Passou a fazer parte da rotina da mais jovem uma visita ao Lar dos Velhos Bene-Herzl, no bairro de Ipanema, onde a mais velha estava vivendo. As duas se sentiam, como se já se conhecessem há muito tempo. Jogavam conversa fora o tempo todo. O importante era aquecer aquele coração envelhecido, que teimava em bater, mesmo que despedaçado desde a sua juventude.

A bem da verdade, Dona Maria Yefremov não teve tempo para ser jovem. Nascida em 1914, na Iugoslávia, junto com a mãe, as irmãs e uma sobrinha de dez anos, foi deportada para Auschwitz. Na época, estava grávida. O seu bebê chegou a nascer, mas assim que foi arrancado de seu ventre, passou para outras mãos e ela nunca mais soube dele.

_ “E eu assisti a isso e não pude fazer nada”, relatou ela para Sofia Débora Levy, em sua obra “Sobreviver”.

Não pôde fazer nada, também, ao perceber que de sua barraca a única vista que tinha do horizonte eram as chaminés dos fornos crematórios. Logo se lembrava de sua mãe e sua sobrinha, escolhidas por Mengele, para ficarem numa outra fila, na entrada do campo de concentração. Via sempre as sombras de suas queridas, no interior da fumaça, que subia para o céu.

Como outros que escaparam do Holocausto, Dona Maria guardava uma lucidez invejável, tanto para recordar o passado, como diante dos fatos corriqueiros da vida. De sua família só restaram dois sobrinhos, que moravam no exterior, mas com quem ela mantinha contato com certa regularidade. Sempre que ela podia, se queixava com as pessoas, em seu entorno, da perda gradativa da visão. Já não conseguia ler livros e jornais como antigamente.

Com o passar do tempo, as suas necessidades foram sendo mais percebidas pela jovem companheira, que, pelo seu jeito de ser, foi assumindo um lugar, também, na manutenção do bem-estar da senhora de cabeça branca e voz mansa.

O aniversário de cem anos de dona Maria foi comemorado, com muita alegria, na casa da amiga. As convidadas foram ativistas WIZO do grupo da anfitriã, que prestavam uma homenagem a quem podia ser considerada um símbolo da resiliência das mulheres de nosso povo.

No dia 23 de dezembro, a Dona Maria partiu. Assistida até o final por um conjunto de instituições judaicas, cujos dirigentes se desdobraram para lhe conceder um final de vida digno, a sobrevivente do Holocausto foi enterrada no Cemitério Comunal do Caju.

A sua jovem amiga se despediu dela, já inconsciente, na ambulância, a caminho da Casa de Saúde, poucos dias antes da sua morte. Foi o último encontro que tiveram. Tratou para que nada lhe faltasse, com os olhos inundados de lágrimas.

Essas mesmas lágrimas, que escorreram em seu rosto, quando se despediu de dona Maria, no cemitério, diante de poucos presentes. Mesmo não sendo religiosa, ainda providenciou para que o Kadish fosse dito, na Sinagoga de Ipanema, em homenagem a Dona Maria, pelos próximos 11 meses.
A confiança, o respeito e o afeto estabelecidos entre as duas, tão diferentes e tão distantes no seu modo de ser, faz parte daquele universo de encontros, que já estavam escritos nas estrelas, que refletem a existência de bondade na terra.

 

 

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