O Leblon dos nossos dias

Vocês não vão acreditar. Parecia saída de um conto de Andersen ou de uma tela de Dali, tendo em vista o contexto. Numa tarde fria de sexta feira, em pleno Leblon, naquele trecho entre as duas estações de metrô, de repente não mais do que de repente, surgiu aquela figura surreal, em meio aquele caos, em que se transformaram as calçadas daquele bairro, que já foi nobre.

Dividindo o espaço, ela caminhava com muita destreza, com suas botas pretas ortopédicas, que lhe davam apoio para as suas pernas finas e tortas, entre camelôs, bicicletas de flores, mesas de bares, pedintes de todos os gêneros, cores e idades, alguns até acompanhados de cães de estimação, carrocinhas de pipocas e churros, colaboradores do ”Greenpeace” e dos “Médicos sem fronteiras”, além dos músicos e seus instrumentos, que, em troca de gorjetas, tentam amenizar o stress nosso do dia a dia.

O impacto que me causou aquela aparição, só deu tempo para que eu imaginasse estar tendo uma alucinação. Seria por causa do novo colírio indicado pela Dra Clarisse? Não era possível. Ainda me lembro de ter passado a mão na vista, para me certificar que estava diante de uma realidade.

No momento seguinte, já me arrependia de não ter sido tão rápida no celular, como a minha neta costuma ser, para tirar, pelo menos, uma foto daquela criatura. Confesso que não sou daquelas que mantém o celular na mão, até por que não há um dia que não escute, da minha janela, gritos e correrias por conta de um roubo desse telefone transformado em gênero de primeira necessidade, tanto para os mocinhos, quanto para os bandidos.

Mas voltando para a minha personagem de carne e osso. Ela estava com um vestido estampado escuro, até meio rodado. Tinha uma blusa branca de manga comprida, aquecendo os seus braços. Era uma senhora magra, com os cabelos pretos, presos num coque bem em cima da cabeça. Andava meio desengonçada, por causa do seu defeito físico. Abordava as pessoas pedindo esmolas.

O que a tornava fantástica era um gato grande e gordo, amarelo malhado, que se equilibrava no seu pescoço, ocupando os seus ombros franzinos, indo até a altura do seu peito. O bicho parecia que estava dormindo, embalado pela cadência do andar de sua dona.

Mal comparando, parecia aquelas peles de raposas, que as nossas elegantes avós usavam nas festas, para se aquecerem nas raras noites de frio, em nossa cidade.

Mais inusitada, ainda, foi a reação das pessoas, que se limitaram a dar uns trocados e a sorrir, de forma complacente, da humilde senhora, que fez do gato o seu sócio, para o ganha pão diário.

Segui, com curiosidade, o percurso dos dois, e até onde a minha vista alcançou, um não se desgrudou do outro. Pareciam almas gêmeas.

Esse é o Leblon dos nossos dias.

 

 

Vocês não vão acreditar. Parecia saída de um conto de Andersen ou de uma tela de Dali, tendo em vista o contexto. Numa tarde fria de sexta feira, em pleno Leblon, naquele trecho entre as duas estações de metrô, de repente não mais do que de repente, surgiu aquela figura surreal, em meio aquele caos, em que se transformaram as calçadas daquele bairro, que já foi nobre.

Dividindo o espaço, ela caminhava com muita destreza, com suas botas pretas ortopédicas, que lhe davam apoio para as suas pernas finas e tortas, entre camelôs, bicicletas de flores, mesas de bares, pedintes de todos os gêneros, cores e idades, alguns até acompanhados de cães de estimação, carrocinhas de pipocas e churros, colaboradores do ”Greenpeace” e dos “Médicos sem fronteiras”, além dos músicos e seus instrumentos, que, em troca de gorjetas, tentam amenizar o stress nosso do dia a dia.

O impacto que me causou aquela aparição, só deu tempo para que eu imaginasse estar tendo uma alucinação. Seria por causa do novo colírio indicado pela Dra Clarisse? Não era possível. Ainda me lembro de ter passado a mão na vista, para me certificar que estava diante de uma realidade.

No momento seguinte, já me arrependia de não ter sido tão rápida no celular, como a minha neta costuma ser, para tirar, pelo menos, uma foto daquela criatura. Confesso que não sou daquelas que mantém o celular na mão, até por que não há um dia que não escute, da minha janela, gritos e correrias por conta de um roubo desse telefone transformado em gênero de primeira necessidade, tanto para os mocinhos, quanto para os bandidos.

Mas voltando para a minha personagem de carne e osso. Ela estava com um vestido estampado escuro, até meio rodado. Tinha uma blusa branca de manga comprida, aquecendo os seus braços. Era uma senhora magra, com os cabelos pretos, presos num coque bem em cima da cabeça. Andava meio desengonçada, por causa do seu defeito físico. Abordava as pessoas pedindo esmolas.

O que a tornava fantástica era um gato grande e gordo, amarelo malhado, que se equilibrava no seu pescoço, ocupando os seus ombros franzinos, indo até a altura do seu peito. O bicho parecia que estava dormindo, embalado pela cadência do andar de sua dona.

Mal comparando, parecia aquelas peles de raposas, que as nossas elegantes avós usavam nas festas, para se aquecerem nas raras noites de frio, em nossa cidade.

Mais inusitada, ainda, foi a reação das pessoas, que se limitaram a dar uns trocados e a sorrir, de forma complacente, da humilde senhora, que fez do gato o seu sócio, para o ganha pão diário.

Segui, com curiosidade, o percurso dos dois, e até onde a minha vista alcançou, um não se desgrudou do outro. Pareciam almas gêmeas.

Esse é o Leblon dos nossos dias.

 

Um comentário

  1. Suzana Grinspan
    Suzana Grinspan 1 de agosto de 2017 at 7:23 |

    SARITA,ÉSTE Não é só o LEBLON de nossos dias,è a rotina diaria de todos os bairros em que vivemos ,Copacabana lembra a5a av de 30 anos atraz com seus camelôs que desempregados vendem de tudo .INFELIZMENTE esta é a vida da NOSSA *CIDADE MARAVILHOSA*.Vc como sempre faz de suas CRÔNICAS EXCELENTES Uma maneira de alertar nossos dirigentes ao CAOS que se transformou o nosso RIO DE JANEIRO.
    PARABENS!!!!E,que venham tempos melhores !!!!!!
    absuzana

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