O país ao léu

Começando pelo lado bom. Filmes imperdíveis, perfeitos para desanuviar as más notícias de cada dia. ‘Um instante de amor’ conta uma história de amor insólita e enredo muito instigante, com fotografia impressionante e atuações magistrais. O mesmo se diga de ‘Uma família de Dois’, emocionante e divertido, quase impossível de conter as lágrimas. ‘Garota Ocidental’, por sua vez, é um filme corajoso, ao trazer costumes radicais muçulmanos – já conhecidos pelos livros que abordam o assunto, mas que, na tela grande, alcançam público maior e evidenciam, com horror, a posição das mulheres em sociedades machistas. Mas, as fitas terminam, saímos do cinema e caímos de volta na realidade.

Balas perdidas aos montes. Tiroteio a qualquer hora, em todo lugar, do subúrbio à zona norte, não escapando a zona sul. E por que escaparia? Por que escapariam todos os cariocas da situação caótica, acéfala em que se encontra não apenas o Rio de Janeiro, mas todo o país?

Não há santos em nossa política. A mudança da capital para Brasília foi um desastre. Motivações dos séculos passados já nada significam nos dias de hoje, quando bombas e mísseis conseguem atingir não só a Costa, porém todo um país. Colocar a capital federal tão escondida apenas facilitou acertos de muito dinheiro (sujo?) e a disparada da corrupção, que hoje se mostra em seu mais hediondo aspecto. E cínica e velhaca como nunca.

Verdade que o Brasil começou, de verdade, com a vinda de D. João VI para cá, há pouco mais de 200 anos. Antes disso, a colônia era pouco mais que nada, embora Pernambuco tenha conhecido dias de glória quando por cá estiveram os holandeses, nos idos de 1630.

A família real portuguesa trouxe a abertura dos portos, milhares de livros e muita nobreza, mudando definitivamente nossos costumes e nossa história. Muito desenvolvimento conheceu a colônia, mas também muita corrupção se armou por aqui. Distribuição de honrarias e títulos honoríficos em massa por El-Rei. Aliás, até hoje nossos políticos distribuem títulos semelhantes ao seu bel prazer, na falta de vocação para se ocuparem com a função para a qual foram eleitos.

Se D. João VI teve bastardos e pensionou suas amantes (Eugênia José de Menezes prova o fato) por toda a vida com dinheiro do Bolso Real, algo semelhante fazem, hoje em dia, nossos governantes. Caso mais barulhento e conhecido pela população é o do senador Renan Calheiros, que gostava de custear os gastos da mãe de sua cria fora dos laços matrimoniais com dinheiro alheio.

A diferença entre o público e o privado não era muito clara nos tempos da monarquia. A julgar pelo que assistimos na República do século XXI, a confusão permanece, ou seja, continuamos presos ao modelo do Antigo Regime. Sim, até hoje sofremos com tais heranças, e entra governo, sai governo, as coisas vão de mal a pior. O Brasil conheceu alguns anos de bonança, mas a maioria de nossa história é um livro aberto para a roubalheira generalizada. Nem é preciso ler grossos compêndios. Basta dar um google e está tudo lá.

Falta-nos o pulo do gato da Educação e da Cultura. Falta-nos um estadista que leve o país em direção ao futuro. Quando é necessário mostrar que vale a pena ser honesto, como quer o ministro do STF, é sinal de que se pratica em massa a desonestidade, hábito que grassa país afora.

Ehud Olmert, primeiro ministro de Israel que foi preso, entre outros crimes, por assédio sexual, acaba de ser libertado. Foram apenas 16 meses de cadeia, mas o suficiente para marcar sua vida pública com nódoa indelével. Crimes devem ser punidos, mesmo que na posição mais alta do governo. Ninguém, ninguém mesmo, deve estar acima da lei. Ao contrário, maior o Poder, mais severa a punição de seu crime.

Ouvindo intelectuais falarem sobre Michel Temer, e de como ele deve aproveitar sua impopularidade para seguir fazendo as reformas que o país precisa, e de como deve cuidar-se para não fazer nenhuma bobagem e perder o rumo de sua trajetória, não se consegue evitar a ironia e a indignação. Escuto tal observação no domingo, 2 de julho. A grande bobagem Michel Temer já fez. Pior, expôs ao país sua verdadeira face – e voz. Ainda que clame aos ventos que a gravação de Joesley Batista é ilícita, ela está aí, e é inegável. O estrago está feito. Ilícito foi o encontro, a conversa, o crime denunciado à toda a nação.

Bem afirmou o presidente não saber como Deus o colocou na cadeira presidencial. Rodrigo Maia disse o mesmo ao ser empossado presidente da Câmara – logo ele, figura apagada que galga degraus por ser filho de quem é, sem qualquer luz própria.

Ora, o que se espera de um chefe de Estado é que ele saiba exatamente o que faz ali, e o faça com dignidade, em vez de perder-se nas teias abjetas da corrupção. Um dia a casa cai; sempre cai. Estamos todos, infelizmente, desgraçadamente, como folhas ao léu.

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