O teatro Carioca de Martins Pena

Continuação….

‘O Noviço’. Sua peça mais conhecida possui três atos (muitas têm apenas um) e vem a público apenas após a morte do dramaturgo. O enredo gira em torno de Ambrósio, que se casa por interesse com Florência, viúva rica, mãe da jovem Emília, do menino Juca, e tutora do sobrinho Carlos, o personagem principal da peça. Ambrósio, aliás, ao abrir a cena, já traz pronto um plano para dominar a fortuna da nova mulher, afastando os enteados e o sobrinho postiço. A partir daí, uma série de peripécias cômicas levam a peça até o final bem humorado que caracteriza o gênero.

Martins Pena efetivamente cria e cunha o teatro brasileiro dito nacional, e dele escreve, com razão, o crítico Sílvio Romero: ‘…se se perdessem todas as leis, escritos, memórias da história brasileira dos primeiros 50 anos do século XIX, seria possível reconstruir, através das peças de Martins Pena, a fisionomia moral de toda esta época.’

Cabe lembrar que os espetáculos de teatro da época apresentam um drama e, em seguida, uma farsa (geralmente importada, portuguesa), para aliviar a platéia das fortes emoções causadas pela representação principal. Eis quando Martins Pena percebe que pode dar ao teatro uma natureza mais brasileira, a partir de tipos com que o público do Rio de Janeiro se identifique facilmente. E intui que o universo que deseja retratar apenas será aceito através da comédia.

Nas cenas rurais, o dramaturgo opta pelo humor, ajudado pelos hábitos rústicos e maneiras broncas de sua gente. As pessoas da roça são ingênuas e de boa índole. Já suas cenas urbanas mostram a sátira e a ironia, com tipos maliciosos e característicos da época. Aborda o casamento por interesse, a carestia, a exploração do sentimento religioso, a desonestidade dos comerciantes, a corrupção das autoridades, a exploração do país por estrangeiros, etc. Todos esses temas parecem próximos à nossa realidade atual. De todo modo, como visa ao cômico, os problemas são apresentados com exagero, ganham resolução leve, levando ao final feliz que dela se espera. Se esta comédia, como as outras, parece ingênua, se os tipos humanos são esboçados de forma primária, ‘O Noviço’ ainda pode ser lida – ou assistida – com muito prazer.

O manuscrito de ‘Um sertanejo na Corte’, que contrapõe com graça o homem rústico ao carioca urbano, e aborda o problema da Educação, é um texto incompleto, que se interrompe ao fim da cena VII. Nesta peça, o Campo de Santana é mencionado, como em outras tramas, enfatizando sua importância na cidade que floresce no Centro.

‘Os dous ou O Inglês maquinista’ fala-se da carestia na cidade, sobretudo do preço das modistas. As francesas cortam os tecidos de seda enquanto as mulheres mais simples, brasileiras, lidam com a chita, explica o enredo. Um personagem lê ‘O Jornal do Comércio’, criado em 1827 e até hoje em circulação; outra, fala dos folhetins, a única seção do jornal que atrai o segundo sexo – ‘ninharias só boas para as moças’. Menciona-se o navio aprisionado por trazer carga de 300 escravos e um personagem chama de asno seu responsável, por ter entrado pela barra com tal carga quando a costa é tão longa e tem autoridades condescendentes, desde que… (recebam propina, completa-se, sem dúvida). Outra personagem feminina relata, aliviada, o escravo recebido, a fim de substituir o que morreu; agora que tem uma ‘peça’, não passa sem ela. Escravos não podem mais ser traficados, mas há o mercado paralelo. E se critica, ainda, fortunas feitas ao atropelo da lei.

‘Quem casa quer casa’, provérbio em um ato, como denomina o autor sua peça, mostra as desavenças entre nora e sogra e sogra e genro, tendo que viver sob o mesmo teto. A falta de moradias, problema que assola o Brasil desde sempre, vem misturada à avareza dos pais dos jovens nubentes, desejosos de lançar sobre as costas uns dos outros o problema dos recém-casados; até que a mesquinhez dos mais velhos vem à tona e estes, sem solução, são forçados a resolver a vida dos jovens, providenciando-lhes domicílio autônomo. Sabe-se que, já na época dos holandeses, Nassau minorou o problema crucial da moradia; e, em nossos dias, a favelização das cidades bem demonstra que recrudesceu a já crônica dificuldade de habitação. A peça, coroando o título, termina ecoando o provérbio.

Tânia Brandão, a renomada historiadora e crítica de teatro, em uma monografia premiada, alia o teatro de Martins Pena ao período histórico em que foi escrito, salientando a produção da arte vinculada à Casa Reinante. Enfatiza, ainda, a pouca exigência cultural, resultado da ausência de tradição (nossa arte era importada, seja da França ou de Portugal), e da inexistência de impulso industrial. A autora ainda coloca o teatro como integrante do aparelho ideológico do Estado: seu papel, desenhar o ideal na relação homem-mulher, ou seja, o casamento e a integral dedicação materna aos filhos.

O comportamento incorreto das pessoas, segundo a autora, está ligado ao seu caráter, à sua essência, inocentando a estrutura social vigente. Segundo ela, a fonte do mal de alguns homens é intrínseca, e não da sociedade, que não pode ser vista como corruptora. O escravo, por sua vez, é visto como elemento partícipe do sistema, pelo que não há crítica à escravidão.

Do mesmo modo, o judeu Daniel, em ‘O usurário’, remonta aos personagens estereotipados medievais e renascentistas, embora a respeitada crítica acredite ser aquele texto, embora incompleto, uma mostra do teatro mais articulado do dramaturgo. Tânia Brandão reconhece o esforço – embora ainda fragilizado pelo próprio contexto cultural – no sentido de definir o que seja nacional. D. Pedro I havia abdicado em 1831 e o país vive os tempos de Regência. Os textos de Martins Pena, diz ela, desvendam a associação ao Estado imposta pelo estatuto social da arte.

A nosso ver, as várias possibilidades de leitura da obra do primeiro dramaturgo de comédia de costumes do Brasil apenas o tornam mais interessante – e digno de renovados e mais profundos olhares.

Luiz Carlos Martins Pena, cuja obra foi reunida pela editora Garnier pela primeira vez em 1898 e tem na Biblioteca Nacional seus manuscritos, é o patrono da cadeira 29 da Academia Brasileira de Letras, além de dar nome a uma escola de teatro (infelizmente, bastante maltratada pelo descaso do Poder Público) no Rio de Janeiro, desde 1908. Suas peças, que mostram a cidade, seja no espaço físico, seja no âmbito do comportamento humano, tornaram-se clássicas na história de nosso teatro, e satirizam, de um modo ou de outro, o fruto da colonização do país, baseada em degredados, exilados e bandidos, conforme alertado já no século XVI.

Porém, apesar de nosso triste começo histórico, cabe-nos manter a esperança. Afinal, o teatro diverte, instrui, estimula, aprimora, esclarece – e, sem dúvida, finalmente liberta. Sim, cabe-nos manter a esperança.

Bibliografia:
COMÉDIAS DE MARTINS PENA, Crítica por Darcy Damasceno, Clássicos Brasileiros. Rio de Janeiro, Ed. Ouro, 1956.
NEVES, Tânia Brandão Pereira. ‘Martins Penna e a questão do teatro nacional’, in MONOGRAFIAS, 1977. Rio de Janeiro, Ed. Serviço Nacional de Teatro, 1979.

RÓNAI, Paulo, DICIONÁRIO UNIVERSAL DE CITAÇÕES. Rio de Janeiro, Ed. Nova Fronteira, 1985.

SERRÃO, Joaquim Veríssimo. O RIO DE JANEIRO NO SÉCULO XVI, Rio de Janeiro, Geográfica Editora, 2008.

 

 

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