O teatro Carioca de Martins Pena – Parte 2

 

(Continuação da edição 413)

Martins Pena escreve 28 peças, sendo considerado o fundador do teatro nacional. Filho de pessoas pobres – Antônio Martins Pena e Ana Francisca de Paula Julieta Pena – o dramaturgo nasce em 1815. Torna-se órfão de pai com um ano de idade e, aos dez, perde a mãe. O padrasto, Antonio Maria da Silva Torres, entrega-o a tutores, que o iniciam nos estudos, até a conclusão do Curso de Comércio, aos 20 anos. Corre o ano de 1835 quando passa a frequentar a Academia Imperial de Belas Artes. Lá, estuda Arquitetura, Estatuária, Desenho e Música; além de Línguas, História, Literatura e Teatro. E é a companhia de João Caetano que representa, pela primeira vez, ‘O juiz de Paz da roça’.

Ao mesmo tempo, Martins Pena entra para o Ministério dos Negócios Estrangeiros, torna-se amanuense da Secretaria dos Negócios Estrangeiros, em 1843, e adido à Legação do Brasil, em Londres, em 1847. Entre 1838 e 1847, no escasso espaço de nove anos, escreve suas quase 30 peças: vinte comédias, além de farsas e tragédia. É também crítico teatral do Jornal do Comércio. Está em Londres quando contrai tuberculose e tenta retornar ao Brasil, porém falece em Lisboa, com apenas 33 anos de idade, em 7 de dezembro de 1848. Chamam-no, à época, ‘O Moliére Brasileiro’, ‘o maior exemplo de espontaneidade literária que apresentam as letras brasileiras…’

Martins Pena direcionou sua pena para a realidade brasileira. E a descreve em suas gaiatices, estripulias, enfatizando o Brasil de sua época com as cores vívidas da comédia. Suas peças estiveram esparsas, foram reunidas de maneira incompleta por algum tempo, algumas seguem inéditas no palco, mas hoje, reunidas, são consideradas clássicas – documentos sociológicos de importância irrefutável.

‘O Juiz de Paz da Roça’, a primeira delas, mostra pessoas simples, de boa índole, que vivem longe das novidades conhecidas pela gente da Corte. Denuncia, ainda, o envio de recrutas pobres para a luta; e aponta os meios de escapar da ordem de guerrear, entre outras espertezas matutas. Ao fim da peça, todos os percalços resolvidos, os personagens cantam, felizes. O fecho típico da comédia, desde sempre.

Temos aí uma comédia rural, documento que retrata o Brasil ainda escravista, revelando hábitos curiosos, a fala simples e a candura dos seres da roça. Os escravos aparecem (ainda não nasceu a Abolição) e comem o que sobra na casa. Se não há carne, dê-lhes laranja e farinha, ensina um personagem. Além de passear pela cidade e mostrar logradouros relevantes da cidade que se desenvolve na área do Centro, os costumes brasileiros satirizados, a família, os juízes, o tratamento dado aos pobres, o gosto por tudo que vem da França, as festas típicas, cada aspecto da vida carioca é colocado na trama. E, embora, para o gosto atual, muitas de suas peças pareçam curtas e superficiais, com personagens apenas esboçados, quase tipos, o fato é que guardam passagens de grande vivacidade e situações surpreendentes, com diálogos espontâneos e perspicazes, repletos de humor e singular veia cômica, um autêntico ‘Ridendum castigat mores.’ Aspecto relevante, Martins Pena sabe exatamente onde começar sua peça, como acabá-la com efeito, e, além de tudo, como preenche-la com peripécias todo o tempo. É pura e deliciosa dramaturgia.

‘O judas em sábado de aleluia’. Outra peça em ato único, esta se passa num sábado de aleluia, e repete a perfeita mostra dos costumes da época, que em alguns casos mantêm-se intocados e, em outros, mudados 180 graus. No primeiro caso, o ridículo da corrupção, tão nossa conhecida, cada vez mais aprimorada e, infelizmente, nos colocando no alto do pódio de tais ocorrências. Aliás, a trama do texto alude abertamente ao derrame de moedas falsas havido na época – crime, por sinal, repetido até nossos dias, vira e mexe de volta aos noticiários; e satiriza outras atividades desonrosas, também atuais. No caso do comportamento feminino, podemos opô-lo ao hoje tão aberto e escrachado modo de vida das moças em geral; a carioquice malandra também está presente no ‘jeitinho peculiar’ para lidar com problemas, demonstrado pelos personagens, bem como nos costumes familiares, no comportamento social e profisssional. Martins Pena vai além de pinçar um instantâneo dos costumes cariocas; ele faz tudo isso e mais a crítica bem humorada da sociedade fluminense de sua época.

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