O teatro Carioca de Martins Pena

Primeira parte

‘O teatro é coisa muito séria. É a mais extensa e concorrida escola pública da boa ou da má educação de um povo.’

Assim alerta Joaquim Manuel de Macedo (1820-1882) em ‘Memórias da Rua do Ouvidor.’ Ou, como diz Pascal, ‘todas as grandes diversões são perigosas para a vida cristã, mas nenhuma é mais temível do que a comédia.’A comédia, justamente ela, brilhará ao se iniciar o teatro brasileiro de costumes, com Martins Pena.

Ainda no século XVI, o Brasil assiste aos primórdios do teatro, com os jesuítas e suas dramatizações religiosas. A Primeira Missa rezada no Brasil, eternizada no quadro de Victor Meirelles, pode ser considerada o início da dramatização por estas bandas.

Os jesuítas mostram aos índios uma nova religião e também uma nova cultura, na qual co-existem literatura e teatro. Os índios, que já possuem seus próprios rituais e danças festivas, facilmente conhecem e aceitam o teatro, então com claro caráter pedagógico, embasado na Bíblia.

O grande responsável pelo teatro do Brasil infante é o padre José de Anchieta. É dele o ‘Auto da Pregação Universal’; também do mesmo religioso temos o ‘Auto de São Lourenço’ ou ‘Mistérios de Jesus’. Nesses tempos primevos, os atores são índios domesticados, ou brancos, futuros padres, e também os mamelucos.

É verdade que as tendências de nossos índios para a música, a dança e a oratória ajudam a técnica usada para introduzir a nova fé. Mas o teatro é, para os padres, instrumento de ‘civilização’, de educação religiosa, e, opondo-se ao ditado de Pascal, também de diversão.

Além do mais, é muito mais eficaz do que um sermão propriamente dito. É a partir do teatro que o ‘sagrado’ conhecido pelo índio se mistura aos dogmas da Igreja Católica; e é com o teatro que, aos poucos, estes se sobrepõem àquele.

Os personagens teatrais da época resumem-se a santos, demônios, ou ao Amor, isto é, ao Temor a Deus. E, por certo, não existem papéis femininos. A não ser os que representam santas – além dos presépios e das pastoris, outros gêneros praticados na colônia incipiente.

No século XVII, o teatro dos jesuítas dá lugar às encenações dos franciscanos, no Convento de Santo Antonio, no Rio de Janeiro, buscando distrair a comunidade em geral; começam, ainda, as representações durante as festas de instalação da província franciscana da Imaculada Conceição, em 1678, no Rio. Antes destas, tais apresentações já eram vistas ao tempo da aclamação de D. João IV, em 1641.

Estes são os anos em que surgem os maravilhosos sermões do padre Antonio Vieira, que atraem o povo na mesma medida que as comédias. Vieira queixa-se – como anota José Arthur Rios em seu livro Ensaios de Olhar e Ver – de que alguns pregadores sobem ao púlpito como se fossem à comédia.

O fato é que, por motivos, intelectuais, religiosos, sociais e humanistas, a obra de Vieira merece todo o destaque, respeito, estudo e atenção. Que seus sermões possuem espírito dramatúrgico já se provou algumas vezes nos palcos cariocas, no que sou suspeita, pois também deles fiz uso, em peça que encenei em 2009, ‘Ecos da Inquisição’, com patrocínio da Eletrobrás e dirigida pelo premiado Moacir Chaves.

No século XVIII, palcos começam a ser montados em praças públicas, em igrejas, ou nas residências de governantes. Em seguida, surgem ainda as Casas de Comédia ou Casas de Ópera, já no final do setecentos. Nascem Companhias de teatro, contratadas por uma temporada ou por todo o ano. Geralmente, os atores são pessoas de classes mais baixas, e ainda não há mulheres em cena; mesmo mais tarde, já liberados os palcos para atrizes, a procura continuará pequena, pela má fama que persegue a atividade. A ocupação seguirá estigmatizada por muitos e muitos anos, até o século XX, como é sabido de todos.

Mas , no século XVII, representa-se Molière, porém já há nomes nacionais, entre eles Luís Alves Pinto, autor de ‘Amor mal Correspondido’; Alexandre de Gusmão, que traduz a comédia francesa ‘O Marido Confundido’; Cláudio Manuel da Costa, que escreve ‘Parnaso Obsequioso’, e Inácio José de Alvarenga Peixoto, autor do drama ‘Enéias no Lácio’.

No século XIX, desembarca a família Real no Rio de Janeiro, cidade que, no dizer do padre Manuel de Nóbrega, ainda no século XVI, ‘o que de melhor havia na colônia’. E, muito embora avise o religioso, ‘o povoamento fosse de bandidos e degredados e malfeitores, cujo único ofício maior era urdir males’, com a vinda da Corte, chega, enfim, o tempo de melhorar a cidade para receber os nobres. Como medida imediata, D. João VI manda contruir teatros decentes. Nasce o Real Teatro São João, atual João Caetano.

O teatro realmente nacional acontece, pois, em meados do século XIX, com Artur de Azevedo, com o ator e empresário João Caetano, e se firma com Martins Pena, através de suas comédias de costumes.

Em 13 de março de 1838, uma tragédia, ‘Antonio José ou O Poeta e a Inquisição’, de Gonçalves de Magalhães, é montada por João Caetano; é o primeiro passo para um teatro considerado brasileiro. É também neste ano de 1838 – a 4 de outubro – que é representada, pela primeira vez, a comédia ‘O Juiz de Paz da roça’, de Martins Pena, que consolida a comédia de costumes, imediatamente a preferida do público. A companhia de João Caetano, por certo, responde pelas duas montagens supra mencionadas.

Martins Pena escreve 28 peças, sendo considerado o fundador do teatro nacional. Filho de pessoas pobres – Antônio Martins Pena e Ana Francisca de Paula Julieta Pena – o dramaturgo nasce em 1815. Torna-se órfão de pai com um ano de idade e, aos dez, perde a mãe. O padrasto, Antonio Maria da Silva Torres, entrega-o a tutores, que o iniciam nos estudos, até a conclusão do Curso de Comércio, aos 20 anos. Corre o ano de 1835 quando passa a frequentar a Academia Imperial de Belas Artes. Lá, estuda Arquitetura, Estatuária, Desenho e Música; além de Línguas, História, Literatura e Teatro. E é a companhia de João Caetano que representa, pela primeira vez, ‘O juiz de Paz da roça’.

Continua na próxima semana…

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