Os castiçais

castiçais
Eram lindos. Tanto na forma, quanto no conteúdo. Cada um tinha três braços. Cada braço representava um de nós. Eram limpos e lustrados às quintas feiras. De prata, estilo meio rococó, tinham  um lugar de destaque na mesa de Shabat e dos Chaguim.

Eram acesos de forma apressada, no último minuto permitido. Sempre depois de um telefonema da sogra, que sabia os horários de acendimento das velas. Naquele tempo, ainda não se distribuía, em larga escala, aquele calendário, que faz parte da porta da geladeira de qualquer uma de nós, hoje.

Gostava de acompanhar a minha mãe na reza das velas. Ela cobria a cabeça com qualquer pano, que estivesse próximo, até um guardanapo que, naqueles tempos era de linho, e ficava por muito tempo diante dos castiçais acesos, fazendo a curta oração, que marcava o início de Shabat.

Imagino quantos pedidos e agradecimentos foram ouvidos, durante a benção das velas, diante daqueles castiçais, que se mantinham brilhantes, em cima da bandeja de prata, mesmo quando a chama de sua vida foi se apagando.

Aliás, um dos sintomas de que a minha mãe já não estava bem, foi quando me vi obrigada a dar as ordens, em seu lugar, para que os castiçais fossem limpos e lustrados, como ela gostava.

Quando, há pouco tempo, consegui  resgatá-los do fundo de uma caixa de lembranças me senti bem culpada. Tinham perdido todo o brilho e estavam completamente sem vida,  como a sua dona. E eu como fiel depositária dos castiçais, por mil motivos, justificáveis ou não, deixei-os entregues à própria sorte.

No momento, estão sendo reanimados por mãos habilidosas, que me foram recomendadas. Ao serem colocados em cima do balcão de uma oficina devem ter sentido a mesma dor, que eu estava sentindo. Iam passar os primeiros shabatot fora de uma casa judaica. A nossa angústia era tanta, que nem o calor de 40 graus, numa lojinha de Botafogo, me impediu de ficar sem voz e engolir alguns soluços. Um copinho do castiçal até caiu no chão, como que se solidarizando com a minha dor, tantas vezes adiada e evitada.

Enquanto o artesão me entregava uma notinha cor de rosa, um turbilhão de lembranças foi passando pela minha cabeça.  O dia em que os castiçais entraram na minha casa, depois do nascimento da minha irmã caçula.  Foi um presente do meu pai para a minha mãe. Ele os trouxe de São Paulo. Por indicação de um amigo, conseguiu quase a preço de custo, como que justificando para a mulher amada, a ousadia da compra.

E eles iluminaram a nossa casa e a nossa vida. Tanto o amor do meu pai pela minha mãe, quanto os castiçais, símbolo dessa cumplicidade.  A sua luz foi tão intensa, que se refletiu, em toda a sua grandeza, no nosso modo de ser.
E eles vão voltar a brilhar numa casa cheia de crianças, descendentes dos meus pais. E assim os castiçais vão se perpetuando na família, fazendo parte da nossa identidade judaica. Mas, mesmo lindos, eles só terão valor, enquanto suas velas iluminarem as mesas de Shabat …

Um comentário

  1. Alice
    Alice 17 de janeiro de 2017 at 1:43 |

    Sarita como e ter recordações tão marcantes, sempre ligadas a religião. Seus netos vão ter orgulho
    em perpetuar! Você tem esse dom! Parabéns!

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