Os meninos que enganavam nazistas

No momento em que vi o banner anunciando o filme, três semanas atrás, sabia que não o perderia. Tudo que é humano me interessa, tudo que é judaico me é imprescindível. Não à toa leio memórias de sobreviventes do Holocausto. Há sempre o que aprender, sobretudo para jamais esquecer nossa História.

A família separada pela perseguição nazista na França tem momentos de humor; afinal, são dois meninos fugindo, sozinhos, assustados, aprendendo o lado difícil da vida, mas, ainda assim, mantendo sua integridade e o aprendizado familiar. E ainda conseguem dar uma lição de dignidade diante dos odiosos colaboracionistas, quando a França, enfim, se libera dos alemães.

Como dizia Elie Wiesel, alguns judeus podem nos envergonhar, mas não o judaísmo. E se seguirmos nossa fé com alma, manteremos a cabeça erguida, sempre.

Por outro lado, tanto falaram e recomendaram que decidimos ir ver ‘Dunkirk’. Sou basicamente contra filmes de guerra, ainda mais os que mostram cenas de violência espetaculosa, mortes e horror. E custou U$150.000.000 de dólares a produção da fita. A mim, pareceu um enorme desperdício. Assim como o ingênuo Alfred Nobel imaginou que a dinamite que ele criara acabaria com as guerras diante do terror que causaria naquela que imaginou ser a última delas, ‘Dankirk’ mostra jovens assustados, no meio de bombas e corpos despedaçados, um absurdo total engendrado por homens belicosos, supostamente criados à imagem de Deus. O que a guerra retrata é a imagem do inferno, e nada tem a ver com lucidez ou sabedoria – muito menos com divindade. E segue se repetindo, tirando a vida de milhares, milhões de rapazes – em alguns casos de moças – que, no filme, repetem todo o tempo seu anseio de voltarem para casa. A visão de guerras devia ser algo do passado, extinto, como os dinossauros. No entanto, o dinossauro persiste, e parece ser o próprio homem.

Também houve a Flip, em Paraty. A emoção da aposentada negra ganhou a festa. Já escrevi aqui, e repito: a escravidão apenas acaba com a Educação. Assim como os negros foram libertos por razões outras que não bondade e humanidade, seu abandono em seguida pela sociedade livre os manteve escravos, pois incapazes de morar e se sustentar com dignidade, sempre fugindo da miséria que os perseguia, juntamente com o analfabetismo. A senhora negra ganhou da mãe o presente da Educação, com muito esforço e luta. Mas os brancos seguem em débito. Quantos negros ainda carecem de Educação justa, a fim de concorrerem no mercado de trabalho em igualdade de condições com os brancos? Um longo caminho a percorrer.

E então me ocorre que os judeus criaram o ORT, um Instituto de Tecnologia filiado à ‘World ORT Union’, que significa Organização, Reconstrução e Trabalho. Criado em 1943, por um grupo de judeus, existe hoje em muitos países do mundo, sempre voltado para a profissionalização do indivíduo, preparando-o para ocupar um lugar na sociedade e na força de trabalho. O ORT foi especialmente útil imediatamente após a Segunda Grande Guerra, para dar aos sobreviventes do nazismo material que o tornasse apto a praticar e prover o seu sustento e de sua família.

Faltou aos escravos liberados no Brasil o ensino que os integrasse à sociedade livre. Afinal, pessoas não podem ser simplesmente descartadas quando já não são mais úteis aos fins mesquinhos de seus algozes. A única maneira de enganá-los é vivendo e sendo feliz – apesar deles. Daí a importância da Educação, um DIREITO do cidadão: branco, negro, pardo, judeu, muçulmano, cristão; de todos e cada um deles.

Ah, sim, o ORT oferece bolsas de estudo. E assim como um aluno, mesmo mostrando excelência, deve abrir mão de tal oferta em prol de um outro que a necessite, do mesmo modo um estudante com situação econômica estável, mesmo aprovado em universidade pública, deve pagar por seus estudos. A Educação anda de mãos dadas com a Justiça, assim como a Democracia anda a par e passo com a responsabilidade e a Educação. As Instituições se interligam e dependem uma das outras para o bom encaminhamento de um país – e não podem se deixar enganar.

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