Pedraria

Rita, nascida na Guanabara, confere o batom rosado no espelho e desce do carro. Percorre o salão, ávida por uma cadeira desocupada, coisa que não é fácil naquele tipo de baile. Basta percorrer o espaço, todo ele, em busca. Quem procura, acha. Quem procura, acha- insiste. E lá está ela, a cadeira desocupada, lá longe, o alívio no fundo do salão. Acomodando o vestido longo com pedraria, cuidando para que não lhe rompa a joia, sequer uma pedra ou um paetê do bordado circular, Rita suspira: senta. Finge não perceber uma bolsa pendurada sobre o encosto da cadeira, agora só sua.

Finge. É pessoa adequada à valsa que toca a orquestra e ao brilho dos candelabros. São voltas lentas, puro deleite, glamour. O aroma das flores que se espalha invisível, redondo. O baile é um giro, um belo giro. Mas lá está a bolsa pendurada sobre o lado direito do encosto. Uma reserva. Aos poucos, isso incomoda. A alça trançada com exagero incomoda, a imponência do adorno, daquilo que não lhe pertence e ocupa, pretendendo estar. A bolsa pendurada. Mas o baile é encantador. Rita, o baile! Ela avista alguém e quer ser avistada. Para o encontro, bastam alguns poucos passos. Ali poderia começar a festa. Sua chance, Rita! Enquanto pondera, espia a valsa regida pelo maestro e seus movimentos circulares, ela, Rita, mais uma das coisas imperceptíveis, ela, Rita, sentada, a ser esquecida pelo baile. Quase engolida, quase volátil. E então decide: apostando na pedraria, em cada uma das pequenas joias que a compõe. Rita se põe de pé. Ajeita o vestido, cuidando para que nenhuma das partes bordadas se desloque. Confere a elegância na postura. E pendura a sua bolsa sobre o lado esquerdo do encosto da cadeira, que é sua e de mais alguém. De longe, vigia seu lugar.

Mais uma vez é detida por elementos que circulam pelo universo do baile. De repente, essa não, lá vem, lá vem, é moça elegante, vestido longo, pedraria no decote, bem aplicada. A moça espia. Espia e senta, num encantamento só, fingindo não perceber as duas bolsas ali penduradas.

 

 

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