Qual é a senha?


Que o Brasil é o país da “burrocracia”, até aí nenhuma novidade, mas você viver essa experiência na sua essência, dá um cansaço…

Há algumas semanas fui surpreendida com a notícia de que tinha uma graninha à minha espera no FGTS, algo realmente surpreendente, pois sempre fui prestadora de serviços e “mico” empresária.

Moro num prédio às antigas, onde o porteiro coloca a correspondência por debaixo da porta e, vez por outra, acontece um pequeno engano, onde a carta da vizinha aparece entre as minhas e vice-versa.

Foi por isso, que pegando a correspondência, achei que uma carta da Caixa Econômica Federal não fosse para mim, mas ao constatar, que o nome estava endereçado a minha pessoa, abri, com certa preguiça, esperando encontrar um conteúdo publicitário.

Ledo engano, a correspondência me contemplava com um numerário bacana, sob o ponto de vista, de quem ignorava qualquer tipo de ressarcimento, no que diz respeito ao FGTS.

Como só assinei a carteira de trabalho duas vezes na minha vida e da primeira vez, recebi tudo que tinha direito, o valor deveria ser referente a um trabalho que fiz por 9 meses, ano passado, porém como tenho pouca experiência como assalariada, ignorava que tinha um montante a receber.

De porte da cartinha fui até uma Caixa Econômica mais próxima para obter informações sobre o assunto. Ao entrar na agência, disse que desejava informações sobre o FGTS. Uma senha com três letras e um número  me foi dado, “VFC 017”. Olhei o painel e a última combinação de VFC era 08. No meu papel estava escrito que três caixas faziam esse atendimento, então segundo os meus cálculos matemáticos e a minha santa inocência, pensei: “se há três guichês e nove números na minha frente, daqui a meia hora, no máximo, serei atendida”.

Sentei em uma cadeira vaga e aguardei serenamente a minha vez, acompanhando o painel eletrônico. Logo, o número seguinte foi anunciado, porém, a combinação de letras não era a mesma que a minha. -”Ok” – pensei, deve ter uma pequena variação e talvez tenha que esperar mais 10 minutos….

Fila de banco é algo extremamente monótono, principalmente depois que ficou proibido o uso do celular. Você, literalmente, não tem o que fazer e logo alguém próximo começa a puxar conversa, que na maioria das vezes é sobre a demora no atendimento, casos de pessoas que foram bloqueadas na porta de entrada do banco, por carregar objetos metálicos etc.

Confesso, que nem sempre estou a fim de levar esse tipo de conversa, mas a minha formação baseada em princípios de respeito ao próximo, não permite ser mal educada com quem quer que seja e, invariavelmente, sou catapultada para esse tipo de entretenimento.

-Estou aqui desde 10h30 e nada…- introduziu a senhora à minha esquerda.

Sorri discretamente, na tentativa de desencoraja-la a prosseguir, mas acredito que o que considero desencorajador é extremamente convidativo, pois sempre a reação é contrária à minha intenção.

-Você está aqui por causa do FGTS? Perguntou.

Sem alternativa, respondi:

-É… acho que tenho um dinheirinho para receber.

Pronto, foi dada a partida para a conversa preferida de 10 entre 9,9 brasileiros desempregados no país.

-Um dinheirinho extra nos dias de hoje é muito bom, né? Eu só quero ver o que vou receber. Trabalhei 12 anos numa escola, fui mandada embora e não recebi nem um décimo do que tinha direito e  blá,blá, blá….

Interessadíssima nas agruras de minha interlocutora, fiquei acompanhando o painel eletrônico, que parecia ter congelado.

Após uma hora e meia com três números na minha frente tendo sido chamados, desisti de esperar e fui embora.

Decidi voltar à Caixa, uma semana depois e, dessa vez, tive um pouco mais de sorte e a minha senha era a próxima da fila. Após uns 10 minutos fui chamada, o atendente olhou o meu extrato e constatou que havia um valor a receber.

-Esse dinheiro ficou disponível de maio a janeiro. Por que você não retirou? – Perguntou num tom desconfiado.

-Não sabia que tinha direito – Respondi, tentando me desculpar (?)

-Não sabia? – Perguntou, de novo, incrédulo.

-Não tenho muita experiência com carteira assinada, tentei explicar, sem grande êxito de convencimento.

Ele então solicitou que voltasse numa outra vez e trouxesse a recisão do contrato e cópias de três folhas da carteira de trabalho.

Não entendi o porquê disso, uma vez que no próprio computador da Caixa consta o devido recebimento. No entanto, não há o que discutir e voltei com os documentos exigidos. Ao pegar a minha nova senha fui informada, que o tempo de espera era de, aproximadamente, 1 hora. Tive a brilhante ideia de passear na rua, peguei a senha e retornei quase 1 hora depois quando constatei que havia apenas, dois caixas atendendo, sendo que um deles, num determinado momento saiu e não voltou mais (deve ter ido almoçar…em outra cidade).

Após 2 horas, minha paciência se esgotou, além de ter um compromisso de trabalho, beneficiei o meu vizinho da cadeira ao lado com quase 10 números antes do seu. Para ele foi um presente dos céus, para mim, um tempo mais do que perdido.

Alguns dias depois, recuperada do estresse, resolvi fazer uma nova tentativa e voltei à Caixa, passando pelo mesmo suplício das vezes anteriores, porém dessa vez, não desisti e, finalmente, após 2 horas, 15 minutos e alguns segundos fui atendida. O atendente digitou alguns números aqui e ali e me entregou um papel.

-Daqui a uma semana, a senhora volta para retirar o dinheiro.

-Voltar de novo? – Respondi incrédula.

-Procedimento normal, senhora.

“Normal?”, pensei cá com os meus botões, que a essa altura não mais interagem comigo, tanto são os meus questionamentos perante o mundo moderno (?).

Um comentário

  1. Sylvia
    Sylvia 20 de julho de 2017 at 15:24 |

    É o retrato exato do que esta acontecendo. Parece que para vc receber tem que passar por todos os pecados… que ja tenha praticado, mesmo sem saber…

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