Querida Raya Jaglom

Imagino você chegando ao Gan Eden, toda elegante, como sempre, depois de quase cem anos, dedicados ao sionismo.  Todos os pais e mães fundadores do Estado de Israel, mais à direita ou mais à esquerda, devem ter se perfilado para te receber, ao lado do teu eterno Joseph, que te apoiou a vida inteira, no teu trabalho pelo aperfeiçoamento das instituições e das condições de vida de teus semelhantes.

Você nasceu na Bessarábia, mas adotou Eretz Israel como tua pátria e Tel Aviv, como a tua cidade. Já casada, com 2 filhos, você fez questão de servir o exército, como motorista de veículos, que resgatavam os refugiados que chegavam na costa israelense. Mesmo enfrentando aqueles duros tempos, você, no início dos anos 40, aceitou o convite de Rebeca Sieff para integrar a WIZO, organização que percebeu logo o teu potencial para a liderança.

Mas só em 1970 você assumiu a presidência, tendo permanecido, por mais de duas décadas no exercício desse importante cargo da maior organização feminina sionista, com representação em mais de cem países. Se você não visitou todos, chegou perto. Muitas ativistas brasileiras ainda se lembram da tua passagem pelo nosso país. A tua ida à antiga União Soviética , antes da glasnost, foi histórica.

Quando te conheci, no início do nosso século, você já era a presidente honorária, mas, assim mesmo, a tua entrada e a tua atuação nos fóruns WIZO causavam um certo frisson. A tua paixão na defesa das tuas ideias, mesmo que contrárias às das lideranças mais jovens, causavam um grande impacto no público. Meia dona da verdade, como as pessoas que chegam ao teu nível de autoridade, você não dispensava o bom embate, dando lição de convicção na defesa dos teus princípios, que não esqueci jamais.

Assim como, não esqueci a tua gentileza e carinho ao me recepcionar, inúmeras vezes, na tua casa, juntamente com outras líderes WIZO. Aquela cobertura, num prédio baixo, numa ruazinha de Tel Aviv, que recebia as mais altas personalidades mundiais do mundo político, das ciências e das artes, se abria para receber mulheres, que, como eu, tinham em comum contigo, a paixão pelo trabalho WIZO.

O teu grande amigo Teddy Kollek, o prefeito mais popular de Jerusalém, deu bem uma noção do teu poder. A WIZO tinha recebido um terreno nessa cidade e você, ao visitar, notou que ele ficava entre duas colinas.  Você não titubeou. Ligou para ele e pediu para que uma das colinas fosse removida, para que a creche ficasse melhor instalada.  E ele atendeu o teu pedido.

Você era assim. Participava dos boards de todas as instituições proeminentes de Israel: as universidades de Jerusalém e Tel Aviv, os museus, o Instituto Chaim Weitzman, a Orquestra Sinfônica, entre outras. Em todas você deixou a sua marca.

Na Organização Sionista, você atuou, de forma espetacular, na campanha “Let my people go”, que visava mobilizar a comunidade internacional pela liberdade dos judeus russos. No caso de Ida Nutels, que, finalmente, conseguiu imigrar para Israel, você contou com o apoio da tua amiga Margareth Thatcher.

Não sei por que estou te lembrando todos esses fatos, já que a tua memória era considerada excepcional, até, pelo menos, o início deste último ano, quando você foi vista e ouvida na reunião anual das presidentes WIZO.

Vou tentar te contar uma novidade, imaginando que você ainda não teve tempo de ler o Jerusalem Post, desde que chegou ao céu. Há alguns anos atrás, esse jornal te denominou a “Rainha de Tel Aviv”. Se lembra? Hoje, por ocasião da tua morte, ele te intitulou “Mulher de valor”.
Eu, modestamente, te considero como um exemplo, com E maiúsculo, a ser seguido, pelas mulheres das novas gerações, em qualquer parte do planeta e, principalmente, por aquelas que fazem parte do mundo WIZO.

Com carinho e admiração eterna,
Sarita Schaffel

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