Rascunho

Era de se esperar que o ilustrador ficasse horas a traçar mais um fio de cabelo ou esfumar os olhos, mas a fome apertava qualquer parte nele; já passava da meia-noite. Meteu algumas fatias de queijo entre duas fatias de pão, pegou um copo de suco, (tendo desejado café!)  e voltou para a mesa de trabalho, arrancando dois grandes nacos do sanduiche gelado no percurso entre a cozinha e o escritório.

Mal afastou o material de desenho que havia largado sobre a figura rascunhada, começou a perceber o quanto poderia ser grave. Ela, ela, a figura, o mirava de soslaio, como se tivesse sido chamada pelo nome ou tocada no ombro, girando a cabeça de leve, em resposta. Ele aproximou-se, focando o rosto, especialmente as sobrancelhas de traçado reforçado. A pele fina, branca, tendo sido propositalmente deixada da cor do papel. Os cabelos negros, em contraste. Lisos, delicados e ao mesmo tempo imponentes, marcantes, escorridos sobre parte da face. Alguns fios soltos comporiam uma possível languidez.

Foi quando resolveu reforçar os olhos, na medida entre a doçura e a agressividade, o mistério e o delírio, uma teia que ele próprio supunha estar criando. Supunha. Mas não, que nada. Nesse momento ela já falava por si. Ela já respirava. Como os fantasmas.

O rascunho era ser vivo.

 

• Inspirado na capa do Jornal Rascunho e na entrevista à Mariana Enriquez.

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