Rio, 11 de setembro

Ao sair de casa sou interceptada por um vendedor ambulante. Não, obrigada, estou com pressa- digo. Fico olhando para ele: são cestos, descansos, bolsas de palha, panos de prato. Não entendo como dá conta de tantos volumes. É uma pessoa carregada pelas mãos, pelos ombros, até as unhas dos pés sofrem com aquele fardo. O sorriso, o franzir da sua testa. Quem sabe, o coração.

Todo aquele carregamento falando de si, sem precisar dizer nada.

E o homem segue. Tento continuar o meu caminho, o dia apenas começa. Mas não paro de pensar nele e de onde teria vindo, faço deduções e, de repente, traço a trajetória da sua vida, ele não é velho, mas antigo, embora seus cabelos grisalhos, ainda sejam o começo.

Não posso seguir. É para ser mais um dia. Não é. Não, não é. Alguma desgraça imensa me captura.

Está aqui, logo ali, tão perto, dobrando a esquina do bairro onde vivo. Vou atrás dele pelas ruas, preciso me mexer, é urgente. Calculo que o mascate terá avançado pouco pela vizinhança, sem maiores saltos, pouca distância. Fico calculando seus passos, imagino-os lentos, carecendo de vigor.

Os cestos são imensos e a pouca força que lhe resta vai me consumindo.

Aos poucos vou desabando, são as possíveis catástrofes que me esbarram.

Enfim, o alcanço. Ele me vê e sorri, parece que me conhece, talvez como eu o conheça. Achei um trocado – digo. E, então, levo alguns descansos de palha trançada por uns poucos reais. Ele me oferece a bolsa de palha. Que bom, vou usar. Levo. E compro panos de prato: preciso de panos de prato para secar a louça. Servem também para as mãos. Reparo na euforia dele. Quando tiver mais bolsas, pode bater na minha porta. Sou louca por bolsas.

Resolvo comprar mais descansos. Ali vou proteger o vidro frágil da mesa, na sala de jantar, mais tarde, quando o dia tiver chegado ao fim. Que não estilhace. Isso poderia ferir, poderia ferir muito, mas não fere. Fico feliz, como ele. Começo, enfim, a minha manhã. É setembro e o céu hoje é azul, aqui na cidade, assim como em outros tantos lugares. Pronto. Começo a ver gente, criança pequena a caminho da escola, de mãos dadas, fazendo de tudo para se soltar, correr e brincar.

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