Rio inspira, respira, respinga…

Berço de estilos musicais como o samba, a bossa nova e o funk carioca, a cidade foi musa inspiradora para muitos compositores. É grande a lista de canções que trazem, em seus versos, referências ao Rio de Janeiro e a seus habitantes. Seu hino, a marchinha carnavalesca Cidade Maravilhosa, de André Filho, cuja composição completa 84 anos em 2018, é uma das que não poupa adjetivos ao ressaltar as belezas do Rio.

O Rio de Janeiro inspirou Tom Jobim e Vinicius de Moraes a compor “Garota de Ipanema”, Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça…

” Cariocas”, de Adriana Calcanhoto, é outro hino de amor ao Rio, que destaca o carioca como, dourado , moderno, esperto ,direto, bamba, craque , alegre etc e tal.

Internacionalmente, o Rio é descrito pelo cantor Barry White em “Rio de Janeiro” como quente, diferente, algo nunca visto antes…

Também, James Taylor em “Only a dream in Rio” se encanta com o mar, o verde, o samba, à noite…
Canções feitas nas décadas de 60, 70, 80, 90… por Chico Buarque, Gilberto Gil, Gabriel o Pensador, Cassia Eller, Erasmo Carlos, entre tantos outros, marcaram a nossa cidade como um paraíso imperdível!

Pois é, marcaram, mas agora não é bem assim. O que escreveria Vinicius de Moraes se fosse à praia de Ipanema, hoje, em pleno século XXI para pegar um sol?

A garota de Ipanema não é mais aquela escultura natural dos anos 60. Ela, agora, é turbinada com silicone. O corpo dourado deu uma pequena clareada, pois a camada de ozônio não permite a exposição ao sol até altas horas. Além disso, quem é que vai à praia no verão com tantos arrastões?

“Aquele Abraço” de Gilberto Gil, já não seria tão apertado, pois poderiam pegar a sua carteira, o seu celular…

Tim Maia, já não iria do “Leme ao Pontal” tão tranquilo como foi em 1986, pois ao passar pelo Flamengo, Botafogo teria que ficar mais esperto e pensar duas vezes antes de tomar um suco de cajú, guaraná ou pedir uma goiabada de sobremesa. Só se estivesse disposto a desembolsar uns trocados a mais.

O Samba do Avião, composta por Tom Jobim em 1963, diz que sua alma canta, quando chega ao Rio de Janeiro e que morre de saudades da cidade. Talvez, se fosse nos dias atuais, Tom diria que sua alma chora, quando pensa no Rio de Janeiro e apesar das saudades, não voltaria para cá, tão cedo…

Copacabana a “Princezinha do Mar” composta por Braguinha em 1946, ressaltava o glamour e as festas elegantes do bairro carioca. Braguinha jamais imaginaria, que décadas depois, sua princezinha viraria a madrasta da Branca de Neve e que hoje, as altas festas são os bailes funks nas comunidades dos arredores.

E por falar em Funk, a música do MC Junior e Leonardo composta em 1995 diz que Rocinha, Borel, Morro do Chapéu Mangueira, Vidigal são lugares para se divertir com chopp, futebol e samba.

Duas décadas depois, a favela passou a ser chamada de comunidade e a Rocinha, Borel, Chapéu Mangueira e Vidigal estão longe de serem lugares para se divertir, a não ser, que você seja um turista estrangeiro, totalmente, mal informado e queira se divertir, perigosamente. Há gosto para tudo, não é mesmo?

O Rio de Janeiro era tão admirado que até Carlos Drummond de Andrade escreveu uma poesia para a nossa cidade, “Rio em Flor de Janeiro”.

…O Rio de Janeiro virou flor
nas praças, nos jardins dos edifícios,
no Parque do Flamengo nem se fala:
é flor é flor é flor…

Não me atrevo a imaginar, o que Drummond escreveria hoje, prefiro ficar com a lembrança das flores.

 

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